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Institutas C A P Í T U L O XXI

DA ETERNA ELEIÇÃO, PELA QUAL DEUS A UNS PREDESTINOU PARA A SALVAÇÃO, A OUTROS PARA A PERDIÇÃO



João Calvino

  

  




 1. PROCEDÊNCIA, RAZOABILIDADE E IMPORTÂNCIA DA DOUTRINA DA ELEIÇÃO E PREDESTINAÇÃO, QUE A ESPECULAÇÃO EXPLORA E CONFUNDE


Mas, já que o pacto de vida não é pregado entre todos os homens igualmente, e entre aqueles a quem é pregado não acha a mesma receptividade, quer qualitativa, quer continuativamente, nessa diversidade se manifesta a admirável profundeza do juízo divino. Pois não há dúvida de que esta variedade serve também ao arbítrio da eterna eleição de Deus. Porque, se é notório que pelo arbítrio de Deus suceder que a salvação é oferecida gratuitamente a uns, enquanto que outros são impedidos de seu acesso, aqui prontamente emergem grandes e árduas questões, as quais não podem ser explicadas de outra forma, se as mentes pias têm por definido o que se impõe manter a respeito de eleição e predestinação.


Questão assaz intrincada, como parece a muitos, porquanto pensam não ser de modo algum coerente que da multidão comum dos homens uns sejam predestinados à salvação, outros à perdição. Claramente se verá, pela argumentação que empregaremos nesta matéria, que são eles que, por falta de discernimento, se enredam.310 Acresce ainda que na própria escuridão que aterra se põe à mostra não só o lado útil desta doutrina, como também seu fruto dulcíssimo. Jamais haveremos de ser claramente persuadidos, como convém, de que nossa salvação flui da fonte da graciosa misericórdia de Deus, até que sua eterna eleição se nos faça conhecida, a qual, mercê deste contraste, ilumina a graça de Deus, a saber, que ele não adota à esperança da salvação a todos indiscriminadamente; ao contrário, ele dá a uns o que nega a outros.


É notório quanto a ignorância deste princípio diminui da glória de Deus, e quanto prejudica a verdadeira humildade. Com efeito, o que é tão necessário que se conheça Paulo nega que se possa conhecer, a não ser que Deus, descartando inteiramente a consideração pelas obras, elegeaqueles que para si decretou. “Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça. Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra” [Rm 11.5, 6]. Se para fazer patente que a salvação não nos provém de outra parte, senão da mera liberalidade de Deus, temos que retroceder-nos à origem da eleição, aqueles que querem extinguir isto, quanto lhes é possível, malignamente obscurecem o que se devia celebrar com magnificência e de bocas cheias e extirpam a própria raiz da humildade. Paulo atesta claramente, quando a salvação de um remanescente do povo é atribuída à eleição da graça, que afinal se conhece então que Deus preserva por seu mero beneplácito aqueles a quem quer, e que não lhes paga nenhum salário, porquanto nenhum lhes pode dever.


Aqueles que fecham as portas para que alguém não ouse dar-se ao gosto desta doutrina, fazem aos homens não menor agravo que a Deus, porquanto nenhuma coisa fora desta será suficiente para que nos humilhemos como devemos, nem tampouco sentiremos deveras quão obrigados estamos para com Deus.311 Com efeito, em nenhum outro lugar há sustentáculo à firme confiança, como o diz também Cristo, porque, para assegurar-nos e livrar-nos de todo temor em meio a tantos perigos, insídias e conflitos mortais, e para fazer-nos sair vitoriosos promete que nenhum perecerá de quantos o Pai lhe confiou [Jo 10.28, 29]. Disto concluímos que todos aqueles que não se reconhecem parte do povo de Deus são miseráveis, pois sempre estão num contínuo tremor; e por isso todos aqueles que fecham seus olhos e não querem ver nem ouvir estes três frutos que apontamos e se propõem a derrubar este fundamento, pensam de forma totalmente equivocada e fazem grande dano a si e a todos os fiéis. E ainda mais, afirmo que daqui nasce a Igreja, a qual, de outra sorte, como corretamente ensina Bernardo,312 não poderia ser achada, nem ser conhecida entre as criaturas, visto que, de modo algum admirável, jaz escondida no recesso da bem-aventurada predestinação e entre a massa miserável dos homens.


Antes, porém, de entrar na matéria propriamente dita, tenho que abordar previamente, em dois lugares distintos, duplo gênero de homens. A discussão acerca da predestinação, quando já por si mesma é matéria um tanto enredilhada, a curiosidade dos homens a torna assaz confusa e inclusive perigosa, visto que o entendimento humano não se pode refrear nem deter-se, por mais limites e termos que se lhes assinale, para não extraviar-se por caminhos proibidos e elevar-se com empenho, se fosse possível, de não deixar segredo de Deus sem revolver e esquadrinhar. Quando vemos a muitos, a cada passo, arrojar-se a esta audácia e improbidade, e entre esses alguns doutro modo não maus, importa que sejam, em tempo oportuno, advertidos sobre qual lhes é nesta parte a medida de seu dever.



Portanto, primeiro que se lembrem de que, enquanto investigam a predestinação, tentam penetrar nos íntimos recessos da divina sabedoria, na qual, se alguém segura e confiantemente irrompe, tampouco conseguirá saciar-se com que sua curiosidade, e estará a adentrar um labirinto do qual não achará nenhuma saída. Pois não é justo que impunemente procure o homem devassar as coisas que o Senhor quis que fossem escondidas em si próprio e esquadrinhe desde a própria eternidade a sublimidade da sabedoria que ele quis que seja adorada e não que seja apreendida, para que também por meio dela ele viesse a ser admirado. Os desígnios secretos de sua vontade que determinou devessem ser-nos desvendados, esses no-los revelou em sua Palavra. Mas determinou que é bom comunicar-nos tudo aquilo que via sernos necessário e proveitoso.


 2. SOMENTE DA ESCRITURA SE DEVE PERSCRUTAR A PREDESTINAÇÃO, O QUE ALIJARÁ A ESPECULAÇÃO TEMERÁRIA E MESMO DANOSA


“Chegamos”, diz Agostinho,313 “ao caminho da fé; mantenhamo-lo com firme constância. Que ele nos conduza à câmara do Rei, na qual estão escondidos todos os tesouros do conhecimento e da sabedoria. Ora, a seus grandes e mui seletos discípulos não olhava com despeito o próprio Cristo Senhor, quando disse: ‘Muitas coisas tenho para vos dizer, porém não as podeis suportar agora’ [Jo 16.12]. Necessário se faz andar, necessário se faz avançar, necessário se faz crescer, para que nossos corações sejam capazes dessas coisas que não podemos presentemente apreender. Porque, se o último dia nos achar progredindo, aí aprenderemos o que aqui não pudemos aprender.”


Se reina em nós o pensamento de que a Palavra do Senhor é o único caminho que nos conduz a investigar tudo quanto é justo dele sustentar-se, é a única luz que à frente nos resplandece para bem perceber tudo quanto a respeito dele convém considerar-se, de toda temeridade facilmente nos conterá e coibirá. Porque sabemos que no momento em que transpusermos os limites assinalados pela Escritura, seremos perdidos fora do caminho e entre trevas espessas, no qual teremos necessariamente que vagar, muitas vezes, sem rumo, resvalar e a tropeçar.


Portanto, que antes de tudo isto esteja diante dos olhos: que procurar outro conhecimento da predestinção além daquele que se expõe na Palavra de Deus, é como se um homem quisesse andar fora do caminho por rochas e penhascos, ou quisesse ver em densa escuridão. Aliás, tampouco nos cause vergonha ignorar algo nessa matéria na qual há certa douta ignorância. Antes, de bom grado nos abstenhamos da perquirição desse conhecimento cuja afetação é tão estulta quão perigosa, e até mesmo fatal. Porque, se a intemperança da mente nos acossa, é oportuno que sem pre se lhe oponha este provérbio com que seja repelida: “Comer mel demais não é bom; assim, a busca da própria glória não é glória” [Pv 25.27]. Ora, há razão para recuarmos atemorizados dessa ousadia, a qual nos pode precipitar à ruína.


 3. EM CONTRAPOSIÇÃO À ATITUDE ESPECULATIVA DOS CURIOSOS E À TACITUDE DOS TIMORATOS, CABE ABORDAR-SE A DOUTRINA DA PREDESTINAÇÃO, PORÉM, COM MODERAÇÃO E VIGILÂNCIA


Há outros que, enquanto querem remediar a este mal, pouco falta a que não prescrevam que seja sepultada toda e qualquer menção da predestinação. De fato, ensinam que se deve fugir a toda e qualquer questão relativa a ela, não de outra forma senão como de algo perigoso, dos quais ainda que, com razão, se deva louvar a moderação, porquanto julgam com tão grande sobriedade que se devem reverenciar os mistérios, no entanto visto que descem a um nível demasiadamente baixo, pouco avançam em relação ao entendimento humano, que não se deixa facilmente ser embargado. Portanto, para que também neste aspecto mantenhamos o legítimo limite, é preciso retornar à Palavra do Senhor, na qual temos segura regra à compreensão. Pois a Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual não se deixa de pôr coisa alguma necessária e útil de se conhecer, nem tampouco se ensina nada mais além do que se precisa saber.


Portanto, tudo quanto na Escritura se dá a conhecer acerca da predestinação, é preciso cuidar para que disso não privemos os fiéis, a fim de que não pareçamos ou maldosamente defraudá-los da benevolência de seu Deus, ou acusar e escarnecer o Espírito por haver divulgado essas coisas que seria proveitoso fossem suprimidas e mantidas em segredo. Insisto que devemos permitir ao homem cristão abrir a mente e os ouvidos a todas as palavras de Deus que lhe são dirigidas, desde que se faça com esta moderação: que assim que o Senhor haja fechado sua santa boca, também fecha ele atrás de si o caminho à especulação. Aqui está o melhor limite da sobriedade: que ao aprendermos sigamos a Deus, deixando que ele fale primeiro; e se o Senhor deixa de falar, tampouco nós queiramos saber mais, nem avançar mais um passo.314


Tampouco é de tão grande relevância o fato de que temem perigo de que com isso desviemos a mente dos oráculos de Deus. Célebre é o dito de Salomão: “Glória de Deus está nas coisas encobertas” [Pv 25.2]. Como, porém, não só a piedade, mas também o senso comum, ditem que isto não se entende de toda e qualquer coisa indiscriminadamente, cabe-nos buscar uma distinção, para que não tenhamos prazer na ignorância bruta sob o pretexto de modéstia e sobriedade. Com efeito, esta distinção é expressa em mui breves palavras por Moisés: “As coisas encobertas”, diz ele, “pertencem ao Senhor nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” [Dt 29.29]. Vemos, pois, como ele exorta a seu povo a que se aplique ao estudo da lei, porque a Deus aprouve promulgá-la, mas ao mesmo povo, por esta mera razão, ele contém nestes limites: que não é lícito aos mortais ingerir-se nas coisas secretas de Deus.


 4. IMPROCEDÊNCIA DA TESE DE QUE A DOUTRINA DA PREDESTINAÇÃO É ABSURDA, CHOCANTE E ATÉ MESMO PERNICIOSA


Confesso que na questão da predestinação homens profanos agarram inopinadamente ao que carpam, ou cavilem, ou invectivem, ou escarneçam. Mas se a insolência desses nos atemoriza, terão de calar-se mesmo os dogmascapitais da fé, dos quais quase nenhum deixam incólume de blasfêmia, ou eles próprios, ou seus similares. A mente refratária não se assanhará menos insolentemente quando ouvir que na essência de Deus subsistem três pessoas, do que se ouvir que Deus previu o que haveria de acontecer em relação ao homem quando o criasse. Tampouco conterão as gargalhadas quando vierem a saber que pouco mais de cinco mil anos transcorreu desde a criação do mundo, pois indagarão por que o poder de Deus permaneceu ocioso e adormecido por tempo tão longo. Enfim, não será possível afirmar nada do que não se riam e façam troça.315 Para reprimirmos a estes sacrilégios, porventura é preciso calar a respeito da divindade do Filho e do Espírito, porventura deixar em silencia a criação do mundo?


Contudo, de fato mais poderosa é a verdade de Deus, tanto neste aspecto como nos demais, para querecue ante a maledicência dos ímpios, como também vigorosamente contende Agostinho no pequeno tratado De Bono Perseverantiae [Do Bem (ou: Do Bom) da Perseverança].316 Ora, vemos que os falsos apóstolos, ao infamarem e incriminarem a veraz doutrina de Paulo, não puderam fazer com que ele se envergonhasse dela.


Quanto ao que replicam alguns, de que a doutrina é mui perigosa, inclusive para os próprios fiéis, e porque é contrária às exortações, visto que as lança por terra, e porque revolve e faz desfalecer o coração dos homens, tudo isso que alegam é fútil. Por estas causas, Agostinho317 não dissimula estar acostumado a ser censurado por pregar a predestinação com extrema franqueza, mas, porque lhe era fácil, refuta a acusação sobejamente. Nós, porém, visto que neste ponto são introduzidos muitos e variados absurdos, preferimos conservar cada um para ser dirimido em seu devido lugar. Desejo alcançar junto a eles apenas isto, em geral: não perscrutemos as coi-sas que o Senhor deixou recônditas em secreto; não negligenciemos as que pôs a descoberto, para que não sejamos condenados ou de excessiva curiosidade, de uma parte, ou de ingratidão, de outra. Ora, também isso disse Agostinho318 judiciosamente, a saber, que podemos seguir a Escritura com segurança, a qual anda como uma criança condicionada ao passo materno, para que a fraqueza não nos desampare. No entanto, os que são tão cautos ou timoratos que desejam ver a predestinação sepultada, para que não conturbe as almas fracas, com que pretexto, afinal, indago eu, cobrirão sua arrogância, quando, indiretamente, acusam a Deus falsamente de estulta irreflexão, como se não pudesse prever o perigo, a qual eles, com sua prudência, acreditam que vão evitar? Portanto, tantos quantos rotulam a doutrina da predestinação como sendo odiosa injuriam a Deus abertamente, como se inadvertidamente se lhe houvesse escapado de manifestar algo que não pode deixar de ser danoso à Igreja.


 5. PREDESTINAÇÃO E PRESCIÊNCIA SÃO ELEMENTOS CORRELATOS, NÃO ESTA A CAUSA DAQUELA; A PREDESTINAÇÃO EVIDENCIADA NA ELEIÇÃO DE ISRAEL, ESCOLHIDO PELO MERO BENEPLÁCITO DE DEUS


Ninguém que queira ser tido por homem de bem e temente a Deus se atreverá a negar simplesmente a predestinação, pela qual Deus adota a uns para a esperança da vida, a outros destina à morte eterna, porém, a envolvem em muitas cavilações, sobretudo os que fazem da presciência sua causa. E nós, com efeito, admitimos que a ambas estão em Deus, porém o que agora afirmamos é que é totalmente infundado fazer uma depender da outra. Quando atribuímos presciência a Deus, queremos dizer que ele tem sempre e perpetuamente permanente sob as vistas, de sorte que, ao seu conhecimento, nada é futuro ou pretérito; ao contrário, todas as coisas estão presentes, e de fato tão presentes que não as imagina como meras idéias – da maneira como imaginamos aquelas coisas das quais nossa mente retém a lembrança –, mas as visualiza e discerne como se estivessem verdadeiramente diante dele. E esta presciência se estende a todo o âmbito do mundo e a todas as criaturas.


Chamamos predestinação o eterno decreto de Deus pelo qual houve por bem determinar o que acerca de cada homem quis que acontecesse. Pois ele não quis criar a todos em igual condição; ao contrário, preordenou a uns a vida eterna; a outros, a condenação eterna. Portanto, como cada um foi criado para um ou outro desses dois destinos, assim dizemos que um foi predestinado ou para a vida, ou para a morte. Deus, porém atesta esta predestinação não só em cada pessoa, mas também deu exemplo dela em toda a descendência de Abraão, da qual fizesse manifesto que está em seu arbítrio de que natureza seja a condição futura de cada nação.


“Como o Altíssimodividisse os povose separasse os filhos de Adão, sua porção foi o povo de Israel, o cordel de sua herança” [Dt 32.8, 9]. A separação está ante os olhos de todos: na pessoa de Abraão, como que em um tronco seco, rejeitados os outros, somente um povo é peculiarmente eleito. A causa dessa escolha, porém, não se põe à mostra, senão que Moisés, para que aos descendentes cortasse a asa de gloriar-se, ensina que estes se sobressaem somente pelo gracioso amor de Deus. Ora, ele determina que esta é a causa de sua libertação: que “Deus amou a seus pais e escolheusua semente após eles” [Dt 4.37]. Mais expressamente em outro capítulo: “O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos. Mas porque o Senhor vos amava ...” [Dt 7.7, 8]. Muitas vezes mais, nele se repete esta afirmação: “Eis que os céus e o céu dos céus são do Senhor teu Deus, a terra e tudo o que nela há. Tão-somente o Senhor se agradou de teus pais para os amar; e a vós, descendência dele, escolheu ...” [Dt 10.14, 15].


Igualmente, em outro lugar preceitua-lhes a santificação, porque foram escolhidospara ser “seu povo especial” [Dt 7.6]. E, em outro lugar, por sua vez, declara que seu amor é a causa de sua proteção [Dt 23.5]. Isto proclamam também os fiéis, a uma voz: “Escolherá para nós nossa herança, a glória de Jacó, a quem amou” [Sl 47.4]. Pois os dotes dos quais foram por Deus adornados atribuem-lhe todos ao gracioso amor, não só porque sabiam que não foram alcançados por algum mérito pessoal, mas também que nem o próprio santo patriarca teve virtude suficiente para adquirir para si e para sua posteridade tão singular prerrogativa e dignidade. E, para que mais vigorosamente esmagasse toda soberba, lança-lhes em rosto que nada des-sa natureza haviam merecido, visto ser este um povo contumaz e de dura cerviz [Ex 32.9; Dt 9.6]. Também os profetas lançam com freqüência esta eleição diante dos judeus, de forma odienta e à guisa de reprimenda, visto que haviam se afastado dela vergonhosamente.


O que quer que seja, adiantem-seagora os que querem restringir a eleição divina ou à dignidade dos homens ou aos méritos das obras. Quando vêem um povo ser preferido a todos os outros e ouvem que Deus não se deixou induzir por nenhum respeito que o levasse a ser mais propenso a uns poucos e maus e indignos, aliás, até mesmo ímpios e indóceis, porventura litigarão com ele porque quis exibir tal demonstração de misericórdia? Com efeito, muito menos impedirão sua obra com suas vozes estridentes; nem atirando ao céu as pedras dos insultos haverão de ferir ou danificar a justiça; antes elas haverão de cair em suas cabeças.


Os israelitas são também lembrados deste princípio de um pacto de graça, quando se trata de dar graças a Deus, ou de confirmar-se numa esperança em relação ao tempo futuro. “Ele nos fez, e não nós mesmos”, diz o Profeta, somos seu povo e ovelhas de seu pastoreio” [Sl 100.3]. A negação que emprega não é supérflua: “e não nós mesmos”, o que se adiciona com vistas a excluir-nos, para que saibam que Deus é não só o autor de todas as coisas boasque os fazem mais excelentes, mas que também ele mesmo é a causa, porque não existia neles nada que os fizesse dignos de tão grande honra.


Com estas palavras também ordena que estejam contentes com o simples beneplácito de Deus: “Vós, semente de Abraão, seu servo; vós, filhos de Jacó, seus escolhidos” [Sl 105.6]. E depois de enumerar os benefícios contínuos de Deus como frutos da eleição, afinal conclui que ele agiu com tanta generosidade porque “se lembrou de seu pacto” [Sl 105.42]. O cântico de toda a Igreja faz ecoar esta doutrina: “Pois não conquistaram a terra por sua espada, nem seu braço os salvou, mas tua destra e teu braço, e a luz de tua face, porquanto te agradaste deles” [Sl 44.3]. Devese, porém, notar que onde se faz menção da terra, ela é o símbolo visível da separação secreta em que se contém a adoção. Davi, em outro lugar, exorta ao povo à mesma gratidão: “Bem-aventurada a nação cujo Deus é Jeová, o povo ao qual escolheu para si por herança” [Sl 33.12]. Samuel os anima à boa esperança: “Deus não vos abandonará, por amor de seu grande nome, já que lhe aprouve criar-vos para serdes seu povo” [1Sm 12.22]. Como também Davi se arma para a batalha, quando sua fé é atacada: “Bem-aventurado aquele a quem escolheste, e fazes chegar a ti, para que habite em teus átrios” [Sl 65.4].


Mas, a eleição oculta em Deus foi confirmada tanto pelo primeiro livramento, quanto pelo segundo e por outros benefícios intermédios, Isaías transfere o termo eleger ao fato de que “Deus se compadecerá de Jacó e ainda elegerá de Israel” [Is 14.1]; porquanto, delineando o tempo vindouro, o Profeta diz que o sinal da eleição estável e sólida é o ajuntamento do povo remanescente, ao qual parecera haver abdicado, ajuntamento que nesse tempo parecera haver sido frustrado. Além disso, quando se diz em outro lugar: “Eu te escolhi e não te rejeitei” [Is 41.9], o Senhor enfatiza o curso contínuo da insigne liberalidade de sua paterna benevolência. Mais expressamente, diz o Anjo em Zacarias [2.12]: “Deus ainda escolherá a Jerusalém”, como se, castigando-a mais duramente, a houvesse rejeitado, ou como se o exílio houvesse sido a interrupção da eleição, a qual, todavia, permanece inviolável, ainda que suas evidências nem sempre se exibam tão nitidamente.


 6. EM ISRAEL SE REGISTRA UM SEGUNDO GRAU DE ELEIÇÃO: DEUS, SOBERANAMENTE, ESCOLHENDO A UNS E REJEITANDO A OUTROS


É preciso adicionar um segundo grau mais restrito de eleição, ou na qual a graça mais especial de Deus se faz mais evidente quando, do mesmo tronco de Abraão, Deus repudiou a uns; reteve outros entre seus filhos, sustentando na Igreja. Inicialmente, Ismael alcançara dignidade para em relação a seu irmão Isaque, porquanto nele o pacto espiritual não fora menos selado com a marca da circuncisão. Ele é cortado; então é eliminado Esaú; finalmente, incontável multidão, e quase todo o Israel. A semente procede de Isaque; a mesma vocação persistiu em Jacó. Deus deu exemplo similar, rejeitando a Saul, o que também magnificamente se proclama no Salmo: “Ele rejeitou a tribode José, e não escolheu a tribo de Efraim;pelo contrário, escolheu a tribo de Judá” [Sl 78.67, 68]. A história sacra repete isso algumas vezes, para que o admirável segredo da graça de Deus se patenteie melhor nesta mudança. Reconheço que Ismael, Esaú e outros foram alijados da adoção por sua própria falha e culpa, porquanto se opuseram à condição de que cumprissem fielmente o pacto de Deus, o qual violaram perfidamente. No entanto, este foi um benefício singular de Deus, ou, seja, que se dignara preferi-los aos demais povos, como se diz no Salmo: “Ele não agiu assim com nenhuma outra nação, nem lhes manifestou seus juízos” [Sl 147.20].


Além disso, não é sem razão que eu disse que aqui se devem notar dois graus, porquanto já na eleição de todo o povo de Israel Deus mostrara em sua mera liberalidade não estar sujeito a nenhuma lei; senão que é livre e age como bem lhe agrade; de modo que por nenhum conceito se pode exigir que reparta sua graça igualmente entre todos, com isso demonstrando que ela é realmente gratuita. Por isso Malaquias acentua a ingratidão de Israel, não só que os escolheu dentre todo o gênero huma-no, mas ainda os separou de uma casa sagradapara que fossem sua propriedade, não obstante de forma pérfida e ímpia desprezaram a Deus, Pai tão benévolo. “Porventura, não era Esaú irmão de Jacó?”, diz o Senhor. “Contudo, amei a Jacó, porém odiei a Esaú” [Ml 1.2, 3; Rm 9.13]. Pois Deus toma por pressuposto que havendo sido ambos os irmãos gerados de um pai santo e que fossem os sucessores do pacto, por fim ramos de uma raiz sagrada, contudo, os filhos de Jacó estavam tanto mais obrigados porque foram elevados a tão alta dignidade. Quando, porém, Esaú, o primogênito, foi rejeitado, o pai destes, que por natureza era inferior, foi feito o herdeiro, prova que foram duas vezes ingratos e se queixa de que não se deixaram reter por esse duplo vínculo.


 7. A ELEIÇÃO EFETIVA EM RELAÇÃO AOS INDIVÍDUOS OU PESSOAS; SÍNTESE DA MATÉRIA EM PAUTA


Se bem que já está suficientemente claro que Deus, por seu desígnio secreto escolhe livremente àqueles a quem quer, rejeitando a outros, contudo, sua eleição gratuita ainda não foi exposta, senão pela metade, até que se haja vindo às pessoas individualmente, às quais Deus não só oferece a salvação, mas de tal forma a confere, que a certeza de conseguir seu feito não fica suspensa nem duvidosa. Estes são contados naquela semente singular de que Paulo faz menção [Rm 9.8; Gl 3.16]. Ora, ainda que a adoção fosse depositada na mão de Abraão, no entanto, visto que muitos dentre sua prole foram podados como membros apodrecidos, para que a eleição fosse eficaz e verdadeiramente estável, é necessário que ascendesse ao Cabeça, em quem o Pai celestial ligou entre si a seus eleitos e a si os vinculou por nexo insolúvel.


Desta maneira, de fato na adoção da descendência de Abraão refulgiu o favor liberal de Deus, que a outros negou; todavia, nos membros de Cristo o poder da graça se afigura muito mais excelente, porque, enxertados em seu Cabeça, nunca apostatam da salvação. Portanto, da passagem de Malaquias que citei há pouco, Paulo arrazoa pertinentemente, dizendo que, onde o pacto da vida eterna se interpõe, Deus chama a si determinado povo, tem contudo uma especial maneira de eleger uma parte do mesmo, de sorte que nem todos são eleitos pela mesma graça. O que se diz: “Amei a Jacó” [Ml 1.2], refere-se a toda a descendência do patriarca, a qual o Profeta aí contrasta com os descendentes de Esaú. No entanto, isto não impede que na pessoa de um só homem nos seja posto exemplo de eleição que não pode afluir sem que atinja sua meta. Paulo que estes são chamados “as relíquias”não sem motivo [Is 10.22; Rm 9.27; 11.5], porque a experiência mostra que da grande massa a maioria se esvai e se vai, de sorte que com muita freqüência só permanece uma porção diminuta.


Se alguém pergunta qual é a causa de que a eleição geral do povo nem sempre é firme e eficiente, a resposta é fácil, visto que o Espírito de regeneração não dota imediatamente com o poder do qual perseverem no pacto até o fim aqueles com quem Deus estabelece esse pacto. Mas, antes, a conclamação externa, sem a eficiência interior da graça, que seria bastante poderosa para retê-los firmes, é um como que elemento intermédioentre a rejeição do gênero humano e a eleição do diminuto número dos piedosos. O povo de Israel foi chamado herança de Deus [Dt 32.9; 1Rs 8.51; Sl 28.9; 33.12], de cujo meio, entretanto, muitos foram estranhos. Mas, visto que, não sem razão, Deus prometera haver de ser seu Pai e Redentor, atenta para este seu gracioso favor antes que para a pérfida defecção de muitos, através dos quais, todavia, sua verdade não foi abolida, porquanto, onde conservou para si algum resíduo, se fez evidente que sua vocação é “sem arrependimento” [Rm 11.29], pois o fato de que Deus haja formado sua Igreja dos descendentes de Abraão em vez das nações pagãs, prova que teve em conta seu pacto, o qual, violado pela maioria, o limitou a poucos, a fim de que não fosse de todo anulado e sem valor.319 Finalmente, essa adoção geralda semente de Abraão foi uma como que imagem visível do benefício maior de que Deus se dignou a alguns dentre muitos. Esta é a razão por que Paulo tão cuidadosamente distingue os filhos de Abraão segundo a carne de seus filhos espirituais, que foram chamados conforme o exemplo de Isaque [Rm 9.7, 8; Gl 4.28]. Não que ser simplesmente filho de Abraão fosse coisa inútil e infrutífera, o que não se pode dizer sem agravo do pacto, mas porque o conselho imutável de Deus, pelo qual predestinou para si aqueles a quem quis, afinal foi de si eficaz para a salvação só a estes últimos. Recomendo, porém, aos leitores que não se imponham um juízo preconcebido em relação a qualquer das duas partes, até que, apresentados os textosda Escritura, se faça evidente o que se deve sentir na matéria.


Portanto, estamos afirmando o que a Escritura mostra claramente: que designou de uma vez para sempre, em seu eterno e imutável desígnio, àqueles que ele quer que se salvem, e também àqueles que quer que se percam.320 Este desígnio, no que respeita aos eleitos, afirmamos haver-se fundado em sua graciosa misericórdia, sem qualquer consideração da dignidade humana; aqueles, porém, aos quais destina à condenação, a estes de fato por seu justo e irrepreensível juízo, ainda que incompreensível, lhes embarga o acesso à vida. Da mesma forma ensinamos que a vocação dos eleitos é um testemunho de sua eleição;321 em seguida, a justificação é outro sinal de seu modo de manifestar-se, até que se chega à glória, na qual está posta sua consumação. Mas, da mesma forma que pela vocação e pela justificação o Senhor assinala seus eleitos, assim também ao excluir os réprobos, seja do conhecimento de seu nome, seja da santificação de seu Espírito, mostra com esses sinais qual será seu fim e que juízo lhes está preparado. Passarei aqui em silêncio muitas fantasias que, no intento de subverter a predestinação, os homens estultos imaginaram. Pois não necessitam de refutação as coisas que, tão logo sejam proferidas, elas próprias sobejamente acusam sua falsidade. Deter-me-ei apenas nessas coisas acerca das quais se debate entre os doutos, ou que possam trazer dificuldade aos simples, ou que, temerariamente, a impiedade se interpõe a estigmatizar a justiça de Deus.



C A P Í T U L O XXII


CONFIRMAÇÃO DESTA DOUTRINA DA ELEIÇÃO E PREDESTINAÇÃO AUFERIDA DOS TESTEMUNHOS DA ESCRITURA


 1. IMPROCEDÊNCIA DA TESE DAQUELES QUE SUBORDINAM A ELEIÇÃO À PRESCIÊNCIA DE MÉRITOS


Todas estas coisas que expusemos não são destituídas de controvérsia junto a muitos, especialmenteaeleição gratuita dos fiés, a qual, no entanto, não pode ser abalada. Pois geralmente pensam que Deus, conforme prevê que serão os méritos de cada um, assim faz distinção entre os homens. Logo, aqueles a quem preconhece que não serão indignos de sua graça, a esses adota em lugar de filhos; aqueles dos quais discerne que se inclinarão para e preferirão sua maldade e impiedade, a esses os devota à condenação da morte. E assim, interpondo o véu da presciência, não só obscurecem a eleição, mas inclusive imaginam sua origem como sendo de outra procedência. Esta opinião generalizadamente recebida não provém da plebe, pois em todos os séculos ela tem tido patronos renomados, o que confesso francamente que, para que alguém não conclua que ao citar seus nomes já tenha conseguido grande vantagem contra a verdade; porque a verdade de Deus é tão certa no que tange a esta matéria, que não pode derribada; e tão clara, que não pode ser obscurecida por qualquer autoridade humana.


Outros, porém, nem tão versados na Escritura, nem tão dignos de qualquer estima, laceram a sã doutrina com improbidade demasiado grande para que sua petulância seja tolerável. Acusam a Deus de que, conforme sua vontade, elege a uns e deixa a outros.322 Mas, se o próprio fato é coisa notória, que proveito esperam obter em demandar contra Deus? Não estamos ensinando nada que não tenha sido comprovado pela experiência, a saber, que Deus foi sempre livre em legar sua graça a quem ele o quer. Não indagarei qual foi a causa que levou a posteridade de Abraão a ser preferida, senão do privilégio cuja causa não se acha fora de Deus. Respondam qual é a causa de serem homens e nãobois ou asnos. Quando na mão de Deus estava fazê-los cães, os formou à sua própria imagem. Porventura admitirão eles que animais brutos discutem com Deus acerca de sua sorte, como se a diferença fosse injusta? Certamente que em nada é mais justo do que possuírem eles um privilégio que não obtivera de nenhum mérito pessoal, ou, seja, o fato de Deus distribuir seus benefícios variadamente, segundo a medida de seu juízo!


Se descendem das pessoas, nas quais a desigualdade lhes parece odiosa, pelo menos deveriam tremer ante a consideração do exemplo de Cristo, e não tão petulantemente acerca de tão profundo mistério. Ele aqui é um homem mortal concebido da semente de Davi. De que virtudes dirão haver ele merecido de antemão que, no próprio ventre se fizesse o Cabeça do anjos, o Filho Unigênito de Deus, a imagem e glória do Pai, a luz, a justiça, a salvação do mundo? A isto sabiamente atenta Agostinho: que no próprio Cabeça da Igreja está o mais límpido espelho da eleição gratuita, para que não nos espantemos quando virmos o que se opera em seus membros, nem que foi feito Filho de Deus por viver justamente, mas, antes, foi graciosamente coroado de tão grande honra, para que, depois, fizesse a outros participantes de suas mercês. Se aqui alguém indagar por que outros não são o que ele é, ou por que todos nós estamos separados dele por tão longa distância? Porque todos nós somos corruptos e ele é a própria pureza, tal pessoa estará a manifestar, a um só tempo, não só seu erro, como também sua impudência. Pois se persistem em querer arrebatar de Deus o livre direito de eleger e de reprovar, então que subtraiam também, ao mesmo tempo, o que foi dado a Cristo.


Vale a penater em conta agora o que a Escritura proclama a respeito de cada um. Quando ela ensina que fomos eleitos em Cristo antes da criação do mundo [Ef 1.4], Paulo elimina toda consideração de nossadignidade real e pessoal, pois é exatamente como se estivesse dizendo que, porquanto em toda a semente de Adão o Pai celestial nada achava digno de sua eleição, ele volveu os olhos para seu Cristo, para que, como que de seu corpo elegesse como seus membros àqueles a quem haveria de tomar como parte de vida. Portanto, valha entre os fiéis esta consideração: nós fomos adotados em Cristo para a herança celestial, já que em nós mesmos não éramos capazes de tão grande excelência. Isto também ele expressa ainda em outro lugar, quando exorta os colossenses à ação de graças, visto que se tornaram divinamente idôneos para que pudessem compartilhar da herança dos santos [Cl 1.12]. Se a eleição precede a esta graça de Deus a fim de que nos tornemos idôneos para a obtenção da glória da vida futura, o que o próprio Deus achará em nós com que se sinta movido a nos eleger? Ele exprimirá ainda mais expressamente o que quer dizer em outra afirmação. “como também nos elegeu” diz Paulo, “antes da fundação do mundo, segundo o beneplácito de sua vontade, para que fôssemos santos e imaculados e irrepreensíveis diante dele” [Ef 1.4, 5; Cl 1.22], onde contrapõe aos nossos méritos, quaisquer que sejam, o beneplácito de Deus.


2. A ELEIÇÃO GRACIOSA, ABSOLUTA, À PARTE DE QUALQUER MÉRITO HUMANO, À LUZ DE EFÉSIOS 1.4, 5


Para que a prova nos seja mais completa, vale a pena destacar, uma a uma, as partes desta passagem [Ef 1.4, 5] que, correlacionadas em um todo, não deixam qualquer dúvida. Chamando-os eleitos, não resta nenhuma dúvida de que ele está se dirigindo a fiéis, assim como declara também logo a seguir, pelo que corrompem esse termo por meio de ficção extremamente detestável os que o confinam à época em que o evangelho foi anunciado. Ao dizer que os fiéis foram eleitos antes da criação do mundo [Ef 1.4], Paulo remove toda e qualquer consideração de dignidadepessoal. Ora, que razão havia para distinção entre aqueles que ainda não existiam e que, depois, em Adão haveriam de ser iguais? Ora, se são eleitos em Cristo, seguese que não só cada um foi eleito fora de si mesmo, mas também que uns foram separados de outros, pois vemos que nem todos são membros de Cristo.


Ao que se acrescenta que foram eleitos para que fossem santos[Ef 1.4], refutando abertamente o erro que deduz a eleição da presciência, uma vez que Paulo protesta que tudo quanto de virtude aparece nos homens é efeito da eleição. Ora, caso se busque causa superior, Paulo responde que Deus havia assim predestinado, e de fato “segundo o beneplácito de sua vontade” [Ef 1.5], palavras com as quais lança por terra a todos os meios que os homens inventaram para sua eleição, pois Paulo não só ensina que todos e quaisquer benefícios que Deus confere para a vida espiritual emanam desta única fonte, da qual Deus elegeu àqueles aos quais quis, mas também, antes que nascessem, lhes teve reservada, individualmente, a graça de que lhes queria comunicar.


3. A ELEIÇÃO É PARA QUE SEJAMOS SANTOS, NÃO PORQUE SOMOS SANTOS; PORTANTO, PARA AS BOAS OBRAS, NÃO PELAS BOAS OBRAS; PARA OS MÉRITOS, NÃO PELOS MÉRITOS


Aliás, onde quer que este decreto divina reine, obra alguma é computada. Essa antítese, é verdade, Paulo não a desenvolve aqui, ela, porém, deve ser subentendida como é explicada em outro lugar por ele mesmo. “[Deus] nos chamou”, diz o Apóstolo, “com santa vocação, não segundo nossas obras, mas segundo seu propósito e a graça que nos foi dada por Cristo antes dos tempos eternos”[2Tm 1.9]. E já o demonstramos nisto que segue: “para que fôssemos também irrepreensíveis” [Ef 1.4], pelo quê toda dificuldade é removida. Podes dizer: “Visto que Deus anteviu que haveríamos de ser santos, por isso nos elegeu” – e assim inverterás a ordem de Paulo. Portanto, com isso podes concluir com certeza: Se ele nos elegeu para que fôssemos santos, então não elegeu porque previa que assim o haveríamos de ser.


Ora, estas duas proposituras se conflitam entre si: que os fiéis tenham sua santidade pela eleição, e que pela santidade de suas obras tenham sido eleitos. Tampouco é válido este subterfúgio a que recorrem com freqüência: que o Senhor dá a graça da eleição não como pagamento por méritos prévios, contudo, a concede por méritos futuros. Pois quando se diz que os fiéis foram eleitos para que fossem santos, ao mesmo tempo se indica que a santidade que neles haveria tem sua origem na eleição. Mas, como concordar que o que é o efeito da eleição veio a ser a causa da mesma?


Além disso, o Apóstolo confirma ainda mais claramente o que havia dito, acrescentando que Deus nos escolheu “segundo o propósito de sua vontade, que propusera em si mesmo” [Ef 1.5-9], porque “propor Deus em si mesmo” equivale exatamente a que se estivesse dizendo que não considerava nada fora dele que tivesse de levar em conta em seu ato de decretar. Portanto, imediatamente acrescenta que toda a suma de nossa eleição é que sejamos “para o louvor da graça divina” [Ef 1.6]. Por certo que a graça de Deus, em nossa eleição, não merece ser proclamada sozinha, a não ser que esta seja gratuita. Com efeito, esta não será gratuita, se ao eleger os seus


o próprio Deus leva em conta de que natureza as obras futuras de cada um hajam de ser. Conseqüentemente, verifica-se valer, generalizadamente, entre todos os fiéis o que Cristo dizia a seus discípulos: “Não fostes vós que me escolhestes; pelo contrário, eu escolhi a vós” [Jo 15.16], onde não apenas exclui os méritos passados, mas também deixa claro que não possuíam em si mesmos nada por que fossem eleitos, não fora queem sua misericórdia os havia antecipado. Como também se deve entender essa indagação de Paulo: “Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?” [Rm 11.35]. Pois com isso Paulo quer mostrar que a bondade de Deus de tal modo antecipa aos homens, que entre eles não acha coisa alguma, no passado e no futuro, mercê do quê concilie com eles seu favor.


4. A ELEIÇÃO GRATUITA À LUZ DE ROMANOS 9


Ora, na Epístola aos Romanos, onde não apenas reitera mais profundamente, mas também expõe mais extensamente este argumento, Paulo nega que sejam israelitas todos os que foram gerados de Israel [Rm 9.6], porquanto, ainda que todos fossem abençoados por direito hereditário, a sucessão, entretanto, não passava a todos igualmente. A origem desta disputa provinha da soberba e falaz glorificação pessoal do povo judaico, uma vez que, como arrogassem para si o nome da Igreja, queriam que a promessa do evangelho dependesse de seu arbítrio, assim como hoje, de bom grado, com este falso pretexto, os papistas se poriam no lugar de Deus. Paulo, embora conceda que, em razão do pacto, a progênie de Abraão seja santa, no entanto, afirma que a maioria nela é estranha, não meramente porque degenerem, de sorte que de legítimos se façam adulterinos, mas também porque a eleição divina especial se eleva ao supremo píncaro e ali reina, a qual só a adoção pode ratificar. Se alguns fossem confirmados por sua piedade na esperança da salvação, e outros fossem excluídos unicamente por sua defecção, certamente que Paulo falaria mui estulta e absurdamente, transportando os leitores à eleição secreta. Ora, se é a vontade de Deus – cuja causa nem se mostra, nem se deve buscar fora dele próprio – que distingue uns dos outros, de sorte que verdadeiros israelitas não são todos os filhos de Israel, é em vão querer imaginar a condição de cada um tendo seu princípio no que tem em si mesmo.


Paulo avança mais a matéria adicionando o exemplo de Jacó e Esaú, porque, embora fossem ambos filhos de Abraão, encerrados de igual maneira no ventre da mãe, ao transferir-se a honra da primogenitura a Jacó, a mudança se assemelhou a um portento, mercê da qual, no entanto, Paulo afirma que foi atestada a eleição de um e a reprovação de outro. Quando se indaga a origem e causa dessa diferente destinação, os doutrinadores da presciência querem que seja posta nas virtudes e vícios dos homens. Pois, sem dúvida, esta é a síntese de seu argumento: Deus mostrou na pessoa de Jacó que ele elegeaos dignos de sua graça; na pessoa de Esaú, que ele repudia aos que prevê serem indignos dela. E assim ousadamente eles argumentam. Paulo, porém, o que diz? “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal para (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, permanecesse firme, não por causa das obras, mas daquele que chama), lhe foi dito: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú”’ [Rm 9.11-13; Gn 25.23]. Se a presciência significasse algo para estabelecer a diferença entre os dois irmãos, certamente que teria sido inoportuna a menção de tempo.


Suponhamos que Jacó foi escolhido por haver merecido esta dignidade pelas virtudes futuras. Com que propósito Paulo diria que Jacó ainda não havia nascido? Ora, teria acrescentado de forma inconsiderada que ele nada fizera de bom, porque é fácil replicar que para Deus nada está oculto e portanto a piedade de Jacó estaria presente diante dele. Se as obras merecem a graça, com razão sua recompensa em relação a elas já então estaria estabelecida antes mesmo de Jacó nascer, precisamente como se ele já atingira a condição de adulto. Mas o Apóstolo prossegue na solução dessa dificuldade e ensina que a adoção de Jacó não procedeu das obras, mas da vocação divina. Em referência às obras, ele não interpõe tempo futuro ou passado; além disso, ele as opõe definitivamente à vocação divina; querendo que, uma vez estabelecida uma, a outra ficaria expressamente excluída, como se estivesse dizendo que é preciso considerar o que agrada a Deus, não o que os próprios homens apresentem de si mesmos. Finalmente, mercê das palavras eleição e propósito, ele quis excluir, nesta matéria, todas as causas que os homens imaginam à margem do conselho secreto de Deus.323


5. A ELEIÇÃO GRATUITA E ABSOLUTA DE DEUS COMPROVADA PELO EXEMPLO DE JACÓ E ESAÚ


Com que poderão obscurecer estas palavras os que na eleição atribuem algo às obras, precedentes e futuras?324 Ora, isto é evadir inteiramente a tese do Apóstolo, de que a diferença entre estes dois irmãos não depende de nenhuma consideração das obras, mas da mera vocação divina, posto que ele estabeleceu esta diferença ainda antes que nascessem. E certamente Paulo não teria ignorado esta sutileza que ousam os sofistas, se tivesse ainda fundamento; mas como sabia perfeitamente que Deus não pode prever no homem nada bom, senão o que houvera de antemão determinado outorgar-lhe por benefício de sua eleição, ele não recorre a essa ordem antagônica, de preferir as boas à causa e origem das mesmas.


Vemos, pois, pelas palavras do Apóstolo, que a salvação dos fiéis se funda tãosomente sobre o arbítrio da eleição divina, e que esse favor não se granjeia em virtude das obras humanas; ao contrário, ela provém da vocação graciosa. Temos também proposta uma espécie de u`potu,pwsin [hyp(typ)sin – representação paradigmática] deste fato. Irmãos são Esaú e Jacó, gerados dos mesmos pais, encerrados ainda no mesmo ventre, ainda não trazidos à luz. Neles tudo é igual, no entanto diverso é o juízo de Deus a seu respeito. A um escolhe, ao outro rejeita. Não existia outra razão para que um fosse preferido ao outro, senão unicamente o direito de primogenitura. Todavia, postergada também essa, defere-se ao mais novo o que se nega ao mais velho. Com efeito, também em outros Deus parece ter sempre, de deliberado intento, desprezado a primogenitura, para que cortasse à carne todo motivode vanglória. Repudiado Ismael, volta a atenção para Isaque [Gn 18.12]; relegado Manassés a segundo plano, honra mais a Efraim [Gn 48.20].


6. A ELEIÇÃO DE JACÓ NÃO VISA APENAS A BÊNÇÃOS TEMPORAIS, É EXPRESSÃO UNICAMENTE DA MISERICÓRDIA DE DEUS, QUE TAMBÉM ELEGE DO POVO UMA PORÇÃO


E se alguém me importunar alegando que destes benefícios inferiores e diminutos não há como concluir-se acerca da suma da vida futura, já que aquele que foi elevado à honra da primogenitura, por isso se deva reputar adotado à herança do céu (ora, são muitos os que de fato não poupam a Paulo, como se, ao citar estes testemunhos,de modo estranho torceu a Escritura), respondo, como já fiz antes, que o Apóstolo não errou por irreflexão, e tampouco abusou deliberadamente dos testemunhos da Escritura. Via ele, porém, o que esses não conseguem visualizar, a saber, que Deus quis declarar a Jacó com um símbolo terreno a eleição espiritual, a qual, de outra maneira, jazia oculta junto a seu tribunal inacessível. Ora, a não ser que atribuamos sua primogenitura a ele concedida ao século futuro, fútil haverá de ter sido a ridícula aparência de bênção, da qual nada haverá de ter-lhe advindo senão infindas provações, incômodos, triste exílio e muitas tristezas e as agruras das preocupações. Portanto, como visse Paulo, além de dúvida, que, mediante a bênção externa Deus atestava aquela espiritual e que de modo nenhum caduca, bênção que a seu servo havia preparado em seu reino, não hesitou em buscar daquela argumento para comprovar a esta. Isso também deve ter-se na lembrança: que o penhor de um domicílio celestial foi confrontado com a terra de Canaã, de sorte que não se deva, de modo algum, duvidar que Jacó foi com os anjos enxertado no corpo de Cristo, para que fosse participante da mesma vida. Logo, Jacó é eleito e Esaú é repudiado; e são diferenciados pela predestinação divina aqueles entre os quais não existia diferença alguma quanto aos méritos.325


Se porventura indagas a causa, o Apóstolo apresenta esta: “Porque foi dito a Moisés: Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e terei compaixão de quem quiser ter compaixão” [Ex 33.19; Rm 9.15]. E que quer isto dizer, pergunto? Aliás, o Senhor afirma de forma mui clara que ele não tem razão alguma de usar de benevolência para com os homens com base neles; ao contrário, ele o faz unicamente com base em sua misericórdia [Rm 9.16], e por isso a salvação dos seus é obra sua. Quando Deus estatui tua salvação baseado unicamente nele mesmo, por que haverás de olhar para ti mesmo? Quando o Senhor te prescreve sua mera misericórdia, por que haverás de recorrer a teus próprios méritos? Quando Deus concentra tua cogitação em sua compaixão, por que haverás de deter-te em contemplação de tuas obras à parte dele?


Portanto, é necessário volver àquele reduzido número o qual Paulo em outro lugar escreve ter sido por Deus conhecido de antemão [Rm 11.2], tal conhecimento não é como esses imaginam, que ele prevê todas as coisas permanecendo ocioso e sem preocupar-se com nada, mas no sentido em que esta expressão é muitas tomada na Escritura. Ora, na verdade, quando em Lucas Pedro diz que Cristo fora entregue à morte pelo determinado conselho e presciência de Deus [At 2.23], não está insinuando um Deus meramente espectador, ao contrário, o Autor de nossa salvação. Assim também o mesmo Pedro, dizendo que os fiéis, a quem escreve, foram eleitos segundo a presciência de Deus, exprime precisamente essa predestinação secreta pela qual Deus selou para si como filhos aqueles aos quais assim quis. E a palavra propósito, a qual associa à guisa de sinônimo, uma vez que, exprimindo por toda parte, em linguagem comum, como determinação fixa, não ensina que Deus sai de si mesmo em busca incerta de nossa salvação. Neste sentido ele diz, no mesmo capítulo, que Cristo foi o Cordeiro conhecido antes da criação do mundo [1Pe 1.19, 20]. Pois o que há de mais absurdo ou mais fútil que haver Deus se posicionado no alto a contemplar para ver de onde salvação haveria de vir ao gênero humano? Portanto, para Paulo, o povo conhecido de antemão equivale a diminuta porção dele misturada à grande massa, a qual arvora falsamente o nome de Deus. Também em outro lugar, para reprimir a jactância daqueles que, apenas cobertos de máscara, diante do mundo arrogam para si as primeiras posições entre os piedosos, Paulo diz que Deus conhece os que são seus [2Tm 2.19].


Enfim, com esse termo, Paulo nos aponta dois povos: um, composto de toda a descendência de Abraão; o outro, à parte deste e que, recôndito sob os olhos de Deus, jaz oculto à vista dos homens. Não há dúvidade que ele tomou isto de Moisés,


o qual afirma que Deus é misericordioso para com aqueles a quem assim quis proceder [Ex 33.19], porquanto a referência foi acerca do povo eleito, cuja condição era igual na aparência. Exatamente como se estivesse dizendo que não obstante ser a adoção comum e geral, contudo, ele reservara para si uma graça à parte, como um tesouro singular, para aqueles a quem tivesse por bem comunicá-la. E querendo mostrar como Senhor absoluto e que livremente poderia dispensar isto, terminantemente nega que haja de ser misericordioso para com um mais que para com outro, senão porque assim lhe foi do agrado, porquanto, quando a misericórdia ocorre ao que a busca, ainda que não sofra repulsa, contudo, ou antecipa ele mesmo, ou em parte adquire para si o favor, o louvor do qual Deus reivindica para si.


7. A ELEIÇÃO NAS PALAVRAS DE CRISTO CONTIDAS NO EVANGELHO DE JOÃO


Ouçamos agora o que pronuncia o Supremo Juiz e Mestre a respeito de toda a matéria. Percebendo tão profunda dureza em seus ouvintes, de tal sorte que diante da multidão derramava as palavras quase que sem nenhum resultado, para que remediasse esse escândalo que os débeis poderiam enfrentar, exclama: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim. Pois esta é a vontade do Pai: que nenhum de todos os que me deu se perca” [Jo 6.37, 39]. Observa bem que o princípio para que sejamos admitidos sob a proteção e amparo de nosso Senhor Jesus Cristo provém da benevolência do Pai.


É possível que aqui alguém dê meia volta e replique que o Pai reconhece no número dos seus somente aqueles que de bom grado se entregam a ele pela fé. Mas Cristo só insiste no fato de que, suportando que o mundo inteiro vagueasse transtornado e se desse nele infindas mudanças, não obstante o conselho de Deus permanecerá mais inabalável que o próprio céu, de forma que sua eleição subsista sólida e íntegra.326 Somos informados que os eleitos já eram do Pai antes mesmo que os desse ao Filho Unigênito. Pergunta-se: porventura isso se dá por natureza? Não, ao contrário, os que eram estranhos os traz a si para que sejam seus. As palavras de Cristo é demasiadamente claras para que, buscando rodeios, possam ser cobertas alguma névoa. “Ninguém”, diz ele, “pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer ... Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim” [Jo 6.44, 45]. Se todos, indiscriminadamente, dobrassem o joelho diante de Cristo, a eleição seria geral; mas, ao contrário, no pequeno número dos que crêem se manifesta esta imensa distinção. Assim também, depois que Cristo declarou que os discípulos que lhe foram dados eram propriedade especial de Deus, o Pai [Jo 17.6], acrescenta pouco depois: “Não rogo pelo mundo, mas por estes que me deste, porque são teus” [Jo 17.9]. Donde ocorre que todo o mundo não pertence a seu Criador, a não ser aqueles poucos que a graça arrebata da maldição, da ira de Deus e da morte eterna, os quais, de outra sorte, haveriam de perecer; o mundo, porém, ele o abandona em sua ruína à qual o destinou.


Ao mesmo tempo, embora se interponha como Mediador, contudo, Cristo reivindica para si, em comum com o Pai, o direito de eleger. “Não estou”, diz ele, “falando de todos; conheço a quem escolhi” [Jo 13.18]. Se alguém indagar de onde os elegeu, ele responde em outro lugar: “Do mundo” [Jo 15.19], o qual exclui de suas orações quando recomenda ao Pai seus discípulos [Jo 17.9]. Realmente é preciso manter isto: quando Cristo afirma que conhece a quem escolheu,denota-se uma certa classe no gênero humano, a qual não se distingue pela qualidade de suas virtudes, mas pelo decreto celeste. Do quê se segue que nenhum se distingue por seus próprios recursos ou diligência, uma vez que Cristo se faz Autor da eleição.


Entretanto, o fato de Cristo, em outro lugar, incluir Judas entre os eleitos, quando era um diabo [Jo 6.70], isto se refere apenas ao ofício apostólico, o qual, ainda que seja um nítido espelho do favor de Deus, como em sua pessoa tantas vezes Paulo reconhece, contudo não contém em si a esperança da salvacão eterna. Portanto, como exercesse ele perfidamente o apostolado, Judas veio a ser pior que um diabo; aqueles, contudo, a quem Cristo uma vez enxertou em seu corpo, não deixará perecer a nenhum deles [Jo 10.28], porque, ao preservar-lhes a salvação, cumprirá o que foi prometido, isto é, manifestará o poder de Deus que “é maior do que tudo[Jo 10.29]. Ora, o que diz em outro lugar: “Pai, nenhum dos que me deste pereceu, exceto o filho da perdição” [Jo 17.12], ainda que seja uma maneira difícil de falar, contudo não contém nenhuma ambigüidade.


A síntese é: Deus, por uma adoção graciosa, cria aqueles a quem quer ter por filhos. A causa intrínseca disto, porém, está nele próprio, porque não leva em conta nada mais além de seu secreto e singular beneplácito.


8. AGOSTINHO REJEITA QUE A PRESCIÊNCIA DIVINA SEJA A CONDIÇÃO DA ELEIÇÃO


Mas alguns dirão que Ambrósio, Orígenes, Jerônimo defenderam a tese de que Deus dispensa sua graça entre os homens conforme haja previsto que cada um viria a fazer dela bom uso.327 Afirmam que também Agostinho, por algum tempo, foi deste parecer.328 Como, porém, houvesse avançado mais no conhecimento da Escritura, não só se retratou dele como evidentemente falso, mas inclusive o refutou firmemente.329 Com efeito, após a retratação, pressionando os pelagianos por persistirem nesse erro, diz ele: “Quem não admire haver o Apóstolo escapado desta noção tão aguda? Ora, pois, como prescrevera uma cousa estupenda acerca daqueles dois, Esaú e Jacó, ainda não nascidos, e depois lança a si mesmo a pergunta: E então? Porventura há iniqüidade em Deus? [Rm 9.14], esse era o lugar para responder que Deus previra os méritos de um e do outro. Contudo, não diz tal coisa; ao contrário, busca refúgio nos juízos e na misericórdia de Deus.”330 E, em outro lugar, como excluísse todos os méritos antes da eleição: “Aqui, de fato”, diz ele, “vazio se faz o fútil arrazoado daqueles que defendem a presciência de Deus contra sua graça e nos dizem que foram eleitos antes da formação do mundo porque Deus anteviu que haveríamos de ser bons, não que ele mesmo nos fizesse bons. Não é isso que ele diz: ‘Não fostes vós que me escolhestes; antes, eu vos escolhi’ [Jo 15.16]. Ora, se nos houvesse escolhido porque sabia que seríamos bons, também teria ao mesmo tempo previsto que o haveríamos de escolher.”331


Valha o testemunho de Agostinho entre aqueles que, de bom grado, aquiescem à autoridade dos pais. Visto que Agostinho não consente em ser dissociado dos de-mais, contudo mostra, mediante claros testemunhos, ser falsa a calúnia dos pelagianos de que ele mantinha aquela opinião. Ora, ele cita de Ambrósio:332 “Cristo chama àqueles em favor de quem ele quer igualmente ter compaixão.” E: “Caso ele o quisesse, dos não-devotos teria convertido em devotos, porém Deus chama a quem assim digna e faz religioso a quem assim queira fazer.” Se alguém quisesse encher um volume com os ditos notáveis de Agostinho no tocante a esta matéria, me seria fácil mostrar ao leitor que só de suas palavras que não tenho necessidade de usar outras palavras além das dele; porém, não pretendo molestá-los com prolixidade. Mas imaginemos que eles não falassem isto. Então atentemos para a própria matéria. O Apóstolo suscitou uma bem difícil, a saber, porventura Deus agiria com justiça se sua graça contemplasse certas pessoas? Questão esta da qual Paulo poderia desvencilhar-se com uma palavra, caso houvesse proposto levar em consideração as obras humanas. Portanto, por que ele não age assim, senão que, antes, dá seguimento a uma tese que se envolve na mesma dificuldade? Por quê, senão porque ele não deve agir assim? Pois o Espírito Santo, por cuja boca falava, não laborava no hábito do esquecimento. Logo, sem quaisquer rodeios, responde: Portanto, Deus mostra favor a seus eleitos, porque assim o queira; por isso tem compaixão deles, porque assim o queira. Ora, o oráculo: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” [Ex 33.19], vale exatamente como se estivesse dizendo: Deus não é movido à misericórdia por outra razão, senão porque ele quer ser misericordioso. Portanto, esta afirmação de Agostinho333 permanece verdadeira: “A graça de Deus não acha ninguém a quem deva eleger, mas faz com que os homens sejam aptos a ser eleitos.”334


9. NÃO É PROCEDENTE A CAVILAÇÃO DE TOMÁS DE AQUINO DE QUE A PREDESTINAÇÃO DIZ RESPEITO À GRAÇA MERCÊ DA QUAL EXTRAÍMOS MÉRITOS QUE SÃO OBJETO DA PRESCIÊNCIA DIVINA


Não faço caso da sutileza de Tomás de Aquino, o qual diz que, ainda que a presciência dos méritos não possa ser chamada a causa da predestinação no que se refere a Deus, que predestina, contudo, pode ser assim chamada no que diz respeito a nós, como quando afirma que Deus predestinou a seus eleitos para que, com seus méritos, alcancem a glória; porque determinou dar-lhes sua graça para que, com ela, mereçam a glória.335 Quando, pois, o Senhor não quer que contemplemos nada na eleição, senão sua mera bondade, se alguém aqui deseje visualizar algo mais, será por mera afetação. Porque, caso queira porfiar em sutileza, não falta com que repulsemos o próprio minúsculo sofismade Tomás. Ele pretende provar que a glória é, de certa maneira, predestinada para os eleitos por seus méritos, porque Deus os predestina à glória pela qual mereçam a glória. Replico, porém, em contrário, que a predestinação para a graça é subserviente à eleição para a vida, e lhe é como que serva; que a graça é predestinada àqueles aos quais a posse da glória foi prescrita já por longo tempo, visto que o Senhor se deleita em conduzir seus filhos da eleição à justificação. Portanto, daí se seguirá que a predestinação para a glória é a causa da predestinação para a graça, e não ao contrário. Deixemos, porém, de um lado essas disputas supérfluas para os que têm sabedoria suficiente na Palavra de Deus. Porque muito bem disse um doutor antigo que os que atribuem a causa da eleição aos méritos, querem mais do que lhes convém.336


10. A UNIVERSALIDADE DO CONVITE DIVINO À SALVAÇÃO NÃO IMPUGNA O PARTICULARISMO DA ELEIÇÃO


Há quem objete dizendo que Deus seria contrário a si mesmo se a todos, universalmente, convide a si, porém admita a poucos. Sendo assim, a universalidade das promessas, segundo eles, anula a distinção da graça especial; e nesse mesmo diapasão falam certos homens moderados, não tanto no afã de sufocar a verdade, quanto a que sejam afastadas questões espinhosas e assim freiem a curiosidade de muitos. Louvável empenho, porém um desígnio que de modo algum se pode aprovar, porquanto seu subterfúgio jamais pode ser escusável. Quanto, porém, desses, aos que insultam mais impudentemente, na verdade sua cavilação é demasiado pútrida ou o erro demasiado vergonhoso.


Já expliquei em outro lugar como a Escritura concilia estas duas coisas, a saber, mediante a pregação exterior, são todos chamados ao arrependimento e à fé, entretanto, nem a todos é dado o espírito de arrependimentoe fé, e logo adiante se haverá de repetir algo mais. Agora nego-lhes o que defendem, visto ser falso de dois modos: primeiro, que Aquele que ameaça que, enquanto faz chover sobre uma cidade, haverá sequidão sobre outra [Am 4.7], que em outro lugar denuncia uma fome de ensino[Am 8.11], não se obrigapor uma lei fixa para que chame a todos igualmente; e, segundo, Aquele que, vedando a Paulo de pregar a Palavra na Ásia, e ao mesmo desviando-o da Bitínia, o impele à Macedônia [At 16.6-10], demonstra ser direito seu distribuir este tesouro àqueles a quem bem lhe pareceu. Entretanto, mediante Isaías mostra mais expressamente como ele destina as promessas de salvação especificamente aos eleitos, pois apenas a respeito deles, mas não de todo o gênero humano indiferentemente, proclama que serão seus discípulos [Is 8.16]. Do quê se faz claro que os que querem que a doutrina de vida se proponha a todos, para que todos aproveitem dela eficazmente, se enganam sobremaneira, visto que ela só se propõe aos filhos da Igreja. Por ora, que isto seja suficiente: ainda que a voz do evangelho se dirija a todos em geral, no entanto, o dom da fé é algo raro. Isaías assinala a causa: que o braço de Deus não se manifesta a todos [Is 53.1]. Se ele dissesse que o evangelho é maligna e perversamente desprezado porque muitos se recusam pertinazmente a ouvi-lo, talvez este pretexto tivesse força acerca de uma vocação universal. Com efeito, a intenção do Profeta não é atenuar a culpa dos homens, quando ensina que a fonte de sua cegueira é o fato de Deus não se dignar manifestar-lhes seu braço; somente adverte que, como a fé é um dom singular, em vão são os ouvidos verberados pelo ensino exterior.


Eu, porém, gostaria de saber destes doutores se porventura Deus nos faz seus filhos só pela pregação, ou também pela fé? Na verdade, quando se diz no primeiro capítulo de João, “Todos quantos crêem no Unigênito Filho de Deus, eles mesmos são também feitos filhos de Deus” [Jo 1.12], aí não se opõe um aglomeradoconfuso, mas se confere aos fiéis uma categoria especial, “que foram nascidos não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem” [Jo 1.13]. Mas se replicam que há consenso mútuo da fé com a Palavra, respondo que é verdade quando há fé. Entretanto, não há coisa nova nem nunca vista que a semente caia entre espinhos [Mt 13.7], ou em lugares pedregosos [Mt 13.5], não apenas porque a maior parte se mostra deveras contumaz para com Deus, mas também porque não foram dotados de olhos e ouvidos para isso. Insistirão: Portanto, o que dizer quando Deus chama para si àqueles a quem sabe que não haverão de vir? Agostinho responde por mim: “Queres disputar comigo? Maravilha-te comigo e exclama: ‘Oh, profundidade!’ Tenhamos ambos o mesmo sentir em temor, para que não pereçamos no erro.”337


Acresce que, se a eleição, segundo Paulo o atesta, é a mãe da fé, faço voltar seu argumento sobre sua cabeça: já que a fé não é geral, então a eleição é especial. Ora, pois, quando Paulo diz que “estamos cheios de toda bênção espiritual, visto que Deus nos elegera antes da criação do mundo” [Ef 1.3, 4], da seriação de causas e efeitos facilmente se conclui: visto que estas riquezas não são comuns a todos, então Deus elegeu apenas aqueles a quem assim o quis. Esta é a razão por que em outro lugar o Apóstolo recomenda a fé dos eleitos [Tt 1.1], para que alguém não pense que adquire para si a fé por seu próprio esforço; ao contrário, em Deus resida esta glória: os que antes elegera são por ele graciosamente iluminados.


Bernardo, pois, diz corretamente: “Ouvem-nos os amigos, cada um individualmente, aos quais também fala: ‘Não temais, pequeno rebanho’ [Lc 12.32], ‘porque vos foi dado conhecer o mistério do reino dos céus’ [Mt 13.11]. Quem são estes? Seguramente, aqueles ‘a quem de antemão conheceu e predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho’ [Rm 8.29]. Fez-lhes conhecido seu grande e secreto desígnio: ‘o Senhor conhece os que são seus’ [2Tm 2.19]; mas o que era conhecido de Deus se manifestou aos homens, nem obviamente confere a outros a participação de tão grande mistério, senão aos mesmos a quem de antemão conheceu e predestinou para que fossem seus”. Pouco depois, conclui: “A misericórdia de Deus é de eternidade a eternidade sobre os que o temem” [Sl 103.17]; desde a eternidade em vista da predestinação; até a eternidade em vista da beatificação; uma não conhecendo principio, a outra não conhecendo fim”.338


Mas, afinal, por que se faz necessário citar Bernardo por testemunha, quando ouvimos da boca do Mestre que “nenhum outro vê o Pai, senão os que procedem de Deus” [Jo 6.46], fazendo saber por meio destas palavras que todos aqueles que não são gerados de Deus ficam aturdidos ante o esplendor de sua face? E de fato apropriadamente associa a fé à eleição, visto que esta sustenta o segundo lugar, ordem que as palavras de Cristo exprimem claramente em outro lugar: “Esta é a vontade do Pai, que eu não perca o que ele me deu; pois esta é sua vontade, que todos quantos crêem no Filho não pereçam” [Jo 6.39, 40]. Se quisesse salvar a todos, como guardião lhes poria à frente o Filho e inseriria a todos em seu carpo, mercê do sacro vínculo da fé. Agora se faz patente que a fé é o penhor singular de seu amor paterno, reservado aos filhos que adotou. Por isso Cristo diz em outro lugar: “As ovelhas seguem ao pastor, porque lhe reconhecem a voz; não seguem, porém, a um estranho, porquanto não conhecem a voz de estranhos” [Jo 10.3-5]. Mas, donde provem este discernimento, senão do fato de que seus ouvidos foram divinamente abertos? Ora, ninguém faz de si mesmo uma ovelha; ao contrário, se concretiza pela graça celestial. Do quê também ensina o Senhor que sua salvação é perpetuamente certa e segura, visto que ela está custodiada pelo insuperável poder de Deus [Jo 10.29]. Portanto, ele conclui que os incrédulos não fazem parte de suas ovelhas [Jo 10.26]; aliás, visto que não são do número daqueles que, através de Isaías [8.16; 54.13], Deus prometeu que seriam seus discípulos. Com efeito, como nos testemunhos que citei se exprime perseverança, ao mesmo tempo eles atestam a constância inflexível da eleição.


11. A REJEIÇÃO DOS RÉPROBOS PROCEDE TAMBÉM DA VONTADE DIVINA, NÃO DA PRESCIÊNCIA DE SUAS OBRAS MÁS


Tratemos agora dos réprobos, de quem o Apóstolo fala também na passagem já indicada, associando, ao mesmo tempo, os eleitos [Rm 9.13]. Ora, como Jacó, sem ainda nada merecer por suas boas obras, é recebido à graça; assim também Esaú, ainda de nenhum inclinado ao delito, é tido em ódio. Se volvermos nossos olhos para as obras, fazemos grave injúria ao Apóstolo, como se ele não percebesse como algo óbvio aquilo que para nós é claro. Com efeito, que ele não percebeu é fácil de ser provado, uma vez que ele insiste expressamente, dizendo que não havia ainda nada de bom ou de mau a ser mostrado de que um é eleito e o outro rejeitado; de sorte que assim prova que o fundamento da predestinação divina não está nas obras.


Além disso, quando o Apóstolo levantou a objeção se porventura Deus é iníquo, não faz uso desta objeção que lhe teria sido a mais firme e a mais evidentedefesa da justiça, a saber, que Deus recompensou a Esaú segundo sua maldade; ao contrário, contentou-se com solução diversa: que os réprobos são suscitados para este fim, ou, seja, para que através deles a glória de Deus resplandeça.


Finalmente, ele adiciona a cláusula: “Deus se compadece de quem quer compadecer-se e endurece a quem quer endurecer” [Rm 9.18]. Vês como o Apóstolo entrega ao mero arbítrio de Deus a um e ao outro? Portanto, se não podemos assinalar outra razão por que Deus usa de misericórdia para com os seus, a não ser porque assim lhe apraz, tampouco disporemos de outra razão por que rejeita e exclui aos demais, senão pelo uso deste mesmo beneplácito. Quando, pois, se diz ou que Deus endurece, ou cumula de misericórdia a quem quis, com isso são os homens admoestados a não buscar nenhuma outra causa que esteja fora de sua vontade.



C AP Í T U L O XXIII


REFUTAÇÃO DAS CALÚNIAS COM AS QUAIS ESTA DOUTRINA TEM SIDO SEMPRE INIQUAMENTE IMPUGNADA


1. IMPROCEDÊNCIA DA TESE DE QUE A REALIDADE DA ELEIÇÃO NÃO IMPLICA A REALIDADE DA REPROVAÇÃO


Mas, enquanto o entendimento humano ouve estas coisas, sua petulância não pode ser contida, de forma variada e acima da medida, sem agitar-se como que pelo clangor de uma trombeta a dar ordem de ataque. E de fato muitos, como se quisessem impedir que Deus seja acusado de tão odiosa discriminação, então admitem a eleição, mas de maneira que negam que alguém seja reprovado. Mas nisto se enganam mui inepta e infantilmente, quando a própria eleição não pode ser mantida, a não ser que seja confrontada com a reprovação. Diz-se que ele separa àqueles a quem adota para a salvação; seria, pois, um notável desvario afirmar que os outros alcançam casualmente, ou adquirem por sua própria indústria o que a eleição dá a poucos. Portanto, aqueles a quem Deus pretere os reprova; não por outra causa, mas porque os quer excluir da herança para a qual predestina a seus filhos.


Tampouco se pode tolerar a obstinação dos que não permitem que se lhes ponha um freio com a Palavra de Deus, tratando-se de um juízo incompreensível dele, o qual até mesmo os próprios anjos adoram.339 Com efeito, já ouvimos que o endurecimento está não menos na mão e no arbítrio de Deus quanto depende de sua misericórdia. Aliás, como o exemplo que me referi previamente, tampouco Paulo se esforça ansiosamente por isentar a Deus de falsidade e mentira; apenas adverte que não é lícito à coisa modelada contender com seu modelador [Rm 9.20]. Ora, aqueles que não admitem que alguém seja reprovado por Deus, como se desvencilharão dessa sentença de Cristo: “Toda árvore que meu Pai não plantou será arrancada?” [Mt 15.13]. Ouvem expressamente que o Pai celestial não teve por bem plantar em seu campo, como árvores sacrossantas, estão evidentemente destinados à perdição. Se negam ser este um sinal de reprovação, não há nada tão claro que lhes possa ser provado.


Mas se não cessam de vociferar, dizendo que nossa fé se dê por satisfeita ouvindo o aviso que Paulo nos dá: que não há motivo para se discutir com Deus se, de um lado, “querendo manifestar sua ira e fazer conhecido seu poder, suporta em muita tolerância e brandura os vasos de ira apresentados para a perdição”, por outro lado, porém, “Para que também desse a conhecer as riquezas de sua glória nos vasos de misericórdia, que para a glória já preparou de antemão” [Rm 9.22, 23]. Observem os leitores que Paulo, para tirar toda ocasião a sussurros e injúrias, outorga a soberania suprema à ira e poder de Deus, porque é iníquo sujeitar-se ao nosso alvitre esses juízos profundos que absorvem todos os nossos sentidos.


É frívolo o que nossos adversários respondem: que Deus não rejeita totalmente àqueles a quem tolera com brandura; ao contrário, permanece de ânimo suspenso para com eles para ver se arrependam. Como se de fato Paulo atribuísse a Deus paciência mercê da qual aguarde a conversão daqueles que diz já preparados para a perdição. Agostinho, pois, diz retamente, explicando esta passagem: quando a paciência é associada ao seu poder, Deus não permite, mas governa por seu poder.340


Replicam dizendo que Paulo, quando diz que os vasos de ira estão preparados para a destruição, acrescenta em seguida que Deus já preparou os vasos de misericórdia para a salvação, como se por meio destas palavras tencionasse dizer que Deus é o autor da salvação dos fiéis, e que se deve atribuir-lhe a glória desse fato; mas que aqueles que se perdem se deve a eles mesmos por meio de seu livre-arbítrio, sem que Deus os reprove.341 Mas, ainda que eu lhes conceda que, com diversa forma de falar, Paulo abranda a aspereza da primeira cláusula, mui longe está de admissível, pois, transferir a preparação para a perdição a outro fator fora do conselho secreto de Deus, o que é asseverado um pouco antes no contexto: “Deus instigou a faraó” [Rm 9.17], em seguida: “A quem assim o quer, endurece” [Rm 9.18]. Do quê se segue que o conselho secreto de Deus é a causa do endurecimento. Eu sustento precisamente o que Agostinho ensina: onde Deus converte lobos em ovelhas, por graça mais poderosa os reforma para que sua dureza seja domada; e que não converte os obstinados porque não lhes outorga uma graça mais poderosa, da qual ele não carece, caso queira exercitá-la.342


2. PRIMEIRA OBJEÇÃO REFUTADA: SERIA INJUSTO E TIRÂNICO SE DEUS VOTASSE À CONDENAÇÃO CRIATURAS QUE AINDA NÃO O HAVIAM OFENDIDO


Estas considerações seriam, por certo, sobejamente suficientes aos pios e modestos e que se lembram de que são simplesmente seres humanos. No entanto, uma vez que estes cães virulentos não vomitam contra Deus uma única espécie de blasfêmia, as responderemos uma a uma, conforme a matéria o requeira. De muitas maneiras os homens adultos litigam com Deus, como se, por suas acusações, o mantivessem incriminado. Portanto, primeiro perguntam com que direito o Senhor se ira contra suas criaturas, das quais não foi provocado previamente por nenhuma ofensa; porque, condenar e destruir àqueles a quem ele bem quer se enquadra mais ao capricho de um tirano do que à sentença legítima de um juiz. E assim lhes parece que os homens têm justo motivo para queixar-se de Deus, se por sua mera vontade, e sem que eles o mereçam, os predestina à morte eterna.


Se algumas vezes cogitações desta natureza vêm à mente dos homens piedosos, para quebrar-lhes os impulsos suficientemente armados lhes bastará apenas isto: se refletirem sobre quão grande improbidade é meramente indagar as causas da vontade divina, quando ela mesma é a causa de tudo quanto existe, e com razão deve ser assim. Ora, se houvesse algo que fosse a causa da vontade de Deus, seria preciso que fosse anterior e que estivesse atada a tal causa, o que não é procedente imaginar-se. Pois a vontade de Deus é a tal ponto a suprema regra de justiça, que tudo quanto queira, uma vez que o queira, tem de ser justo. Quando, pois, se pergunta por que o Senhor agiu assim, há de responder-se: Porque o quis. Porque, se prossigas além, indagando por que ele o quis, buscas algo maior e mais elevado que a vontade de Deus, o que não se pode achar. Portanto, contenha-se a temeridade humana e não busque o que não existe, para que não venha, quem sabe, a acontecer que aquilo que existe não ache. Afirmo que, com este freio, bem se conterá quem quer que queira com reverência filosofar acerca dos mistérios de seu Deus.


Contra a audácia dos ímpios, que não temem maldizer abertamente a Deus, o próprio Senhor se defenderá suficientemente com sua justiça, sem nosso concurso, quando, alijando de suas consciências toda tergiversação, as forçará e as pronunciará culpadas e incriminadas. Entretanto, tampouco ingerimos em Deus a ficção de um poder absoluto, porque, assim como é profana, também com razão nos deve ser detestável. Não imaginamos um Deus sem lei, ele que lei é para si próprio, porque, como diz Platão, os homens que laboram em paixões necessitam de leis; mas a vontade de Deus é não só pura de toda imperfeição, mas também é a suprema regra da perfeição, inclusive é a lei de todas as leis. Negamos, porém, que ele esteja sujeito a prestar conta; negamos também que sejamos juízes idôneos, nós que, de próprio senso, pronunciemos sentença acerca desta causa. Portanto, se tentarmos ir além do que é permitido, que nos infunda medo aquela sentença do Salmo [51.4] de que Deus haverá de ser vencedor sempre que for julgado pelo homem mortal.


3. DEUS NÃO É INJUSTO, NEM ARBITRÁRIO, EM VOTAR À CONDENAÇÃO A QUEM, POR SUA CORRUPÇÃO, OUTRA COISA NÃO MERECE


Em mantendo silêncio, Deus pode assim conter seus inimigos. Mas, para que não permitamos que seu sacro nome seja tido em escárnio impunemente, sua Palavra também nos provê armas contra eles. Portanto, se alguém nos acometer com palavras desta natureza: Por que Deus no início predestinou alguns à morte, os quais, como ainda não existissem, não podiam ainda ser merecedores de juízo de morte, à guisa de resposta lhes indaguemos, por nossa vez, se pensam que Deus deve algo ao homem, caso o queira estimar por sua própria natureza? Como estamos todos infeccionados pelo pecado, não podemos deixar ser odiosos a Deus, e isso não por crueldade tirânica, mas por razão de justiça mui eqüitativa. Porque, se todos são passíveis de juízo de morte, por condição natural, os que o Senhor predestina à morte, pergunto de que iniqüidade sua para consigo, se hajam de queixar-se?


Venham todos os filhos de Adão; contendam e alterquem com seu Criador por que antes mesmo de serem gerados foram predestinados à perpétua miséria por sua eterna providência. Que poderão vociferar contra esta vindicação quando, em contrário, Deus os haverá de convocar ao exame de si próprios? Se de massa corrupta foram todos tomados, não é de admirar se estão sujeitos à condenação. Logo, não acusem falsamente a Deus de iniqüidade, se de seu eterno juízo foram destinados à morte, à qual são por sua própria natureza conduzidos por vontade própria, queiram ou não queiram, eles mesmos sentem. Do quê se faz evidente quão perversa é a afetação de vociferar contra Deus, porque suprimem, deliberadamente,a causa da condenação que em si são compelidos a reconhecer, para que o pretexto de Deus os livre. Com efeito, ainda que eu confesse cem vezes confesse ser Deus o autor de sua condenação – o que é mui verdadeiro –, entretanto, não se purificarão do pecado que está esculpido em suas consciências, e que a cada passo se apresenta ante seus olhos.


4. IMPROCEDÊNCIA DA TESE DE QUE OS RÉPROBOS SÃO INCULPÁVEIS, JÁ QUE SÃO PREDESTINADOS POR DEUS PARA O PECADO


Objetam ainda se foram predestinados por disposição de Deus a esta corrupção, que ora afirmamos ser causa de sua condenação. Porque, se é assim, quando perecem em sua corrupção, outra coisa nãoestão pagando senão as penas de sua miséria, na qual, por sua predestinação, Adão caiu e arrastou com ele toda sua progênie. Deus, pois, não será injusto, que tão cruelmente escarnece de suas criaturas? Sem dúvida confesso que foi pela vontade de Deus que todos os filhos de Adão nesta miserável condição em que ora se acham enredilhados. E isto é o que eu dizia inicialmente: por fim, tem-se sempre de volver ao mero arbítrio da vontade divina, cuja causa está escondida nele mesmo. Mas, não se segue diretamente que Deus esteja sujeito a esta injúria. Pois em Paulo encontramos isto: “Quem és tu, ó homem, que discuta com Deus? Porventura o objeto moldado dirá àquele que o moldou: Por que me moldaste assim? Por acaso não tem o oleiro poder para fazer de uma só massa um vaso para honra, e outro para desonra?” [Rm 9.20, 21].


Negarão que dessa maneira se defende verdadeiramente a justiça de Deus; ao contrário, aqui se capta subterfúgio como costumam ter os que estão destituídos de desculpa justa. Pois, que outra coisa aqui se parece dizer, senão que Deus possui um poder que não pode ser impedido de fazer absolutamente nada, conforme lhe parecer do agrado? Mas afirmo que isto é muito diferente, pois que razão mais poderosa se pode apresentar que enquanto somos impelidos a ponderar quem seja Deus? Ora, como admitiria alguma iniqüidade Aquele que é o Juiz do universo? Se pertence propriamente à natureza de Deus fazer juízo, portanto ele ama por natureza a justiça e aborrece a injustiça. Portanto, o Apóstolo não volveu os olhos com evasivas, como se estivesse embaraçado; simplesmente mostrou que a justiça de Deus é demasiado profunda e sublime para poder ser determinada com medidas humanas e ser compreendida por algo tão tacanho como é o entendimento humano.343 De fato, o Apóstolo confessa que os juízos divinos são tão secretos [Rm 11.33], por cuja profundeza seriam tragadas todas as mentes humanas, se aí tentassem penetrar.


Mas, também ensina quão indigno é a essa lei reduzir as obras de Deus a tal condição que no momento em que não entendamos a razão e causa das mesmas nos atrevamos a condená-las. Conhecido é o dito de Salomão, o qual, no entanto, pou-cos entendem corretamente: “O Poderoso, que formou todas as coisas, paga ao tolo e recompensa ao transgressor” [Pv 26.10]. Pois ele está exclamando acerca da grandeza de Deus, em cujo arbítrio está exercendo a punição de estultos e transgressores, ainda que não os digne de seu Espírito. E portentosa é a sandice dos homens, enquanto desejam sujeitar assim à acanhada medidade sua razão aquilo que é imensurável. Os anjos que se mantiveram firmes em sua integridade, Paulo os denomina de eleitos [1Tm 5.21]; se sua constância foi fundada no beneplácito de Deus, a apostasia dos outrosé uma confissão de que foram desamparados por ele, cuja causa outra coisa não pode ser senão a reprovação, a qual está oculta no conselho secreto de Deus.


5. INESCRUTÁVEL É A CAUSA QUE ASSISTE À VONTADE DIVINA NA PREDESTINAÇÃO, CONTUDO, ABSOLUTAMENTE JUSTA E INDISCUTÍVEL


Que se apresente agora algum maniqueu ou celestino,344 caluniador da divina providência. Com Paulo afirmo que não devemos buscar razão para ela porque, em sua magnitude, nos supera em muito a inteligência. Por que maravilhar-se? Ou, que absurdo existe? Porventura queira que o poder de Deus seja tão limitado que não possa engendrar algo mais da que sua mente apreenda? Com Agostinho345 afirmo que foram criados pelo Senhor aqueles a quem sabia, sem dúvida, de antemão que haveriam de ir para perdição, e que fez isto porque assim o quis. Mas, por que Deus assim o quis não é de nossa alçada indagar a razão, a qual não podemos compreender. Tampouco devemos discutir se a vontade de Deus é ou não justa; visto que, sempre dela se faz menção, sob seu nome se enuncia a suprema e infalível regra de justiça. Logo, por que lançar dúvida se haverá iniqüidade onde claramente se vê que a justiça se faz presente? Aliás, tampouco nos envergonhemos, a exemplo de Paulo, de assim fechar a boca dos ímprobos; e sempre que ousarem ladrar, que se repita: “Ora, quem sois vós, míseros homens, que formulais acusação contra Deus [Rm 9.20], e acusá-lo não por outra razão, senão porque não se presta a rebaixar a grandeza de suas obras, não as acomodando a vossa ignorância?” Como se essas obras fossem iníquas, só porque são ocultas à carne! A imensidade dos juízos de Deus vos é notaria por experiências claras. Sabeis que eles são chamados “abismo profundo” [Sl 36.6]. Considerai, pois, a estreiteza de vosso entendimento, se porventura ele apreenda o que Deus em si decretou. Portanto, que proveito há, em mergulhardes, em louca indagação, em um abismo que a própria razão dita vos haver de ser fatal? Por que vos não coíbe ao menos algum temor, visto que tanto a história de Jó, quanto os livros proféticos, falam da incompreensível sabedoria e do terrível poder de Deus?


Se tua mente se sente perturbada, não te acanhes em abraçar o conselho de Agostinho: “Tu, um homem, esperas de mim uma resposta, e eu sou, também, apenas um homem. Portanto, ouçamos ambos Aquele que diz: ‘Ó homem, quem és?’ [Rm 9.20]. Melhor é a ignorância fiel que o saber temerário. Busca méritos; não acharás, a não ser punição: ‘Oh, profundeza!’[Rm 11.33]. Pedro nega a Cristo; ladrão crê: ‘Oh, profundeza!’ Buscas a razão? Eu me arrecearei da profundeza. Tu arrazoa, eu me maravilharei; tu disputa, eu crerei; vejo a profundeza, ao fundo não chego. Paulo se aquietou, porque achou admiração. Ele chama inescrutáveis os juízos de Deus, e tu vieste perscrutá-los? Ele diz que seus caminhos são insondáveis, e tu os esquadrinhas?”346 Nada conseguiremos em avançar adiante, pois nem isto satisfaz sua petulância, nem de outra defesa precisa o Senhor que daquela usada por seu Espírito, que falava pela boca de Paulo, e nós próprios desaprendemos de falar bem cessamos de falar com Deus.


6. SEGUNDA OBJEÇÃO REFUTADA: É GROSSEIRA INJUSTIÇA POR PARTE DE DEUS PUNIR A QUEM É CONDENÁVEL POR CAUSA DE SUA PREDESTINAÇÃO, VISTO QUE NÃO É RESPONSÁVEL POR SEUS PECADOS


Da impiedade emerge também outra objeção, a qual, no entanto, visa diretamente não tanto à incriminação de Deus, quanto à vindicação do pecador, ainda que, quem é condenado por Deus como pecador, somente com ignomínia do Juiz pode, afinal, ser justificado. Portanto, assim vociferam as línguas profanas: Por que Deus imputaria aos homens como sendo falha essas coisas cuja necessidade ele impôs em razão de sua predestinação? Ora, que haveriam de fazer? Porventura lutariam contra seus decretos? Mas fariam isso em vão, uma vez que não possam fazêlo absolutamente. Logo, são punidos por essas coisas não por direito cuja causa primordial está na predestinação divina.


Abster-me-ei aqui da defesa a que recorre a maioria dos escritores eclesiásticos, ou, seja, que a presciência de Deus não impede que o homem se repute pecador, uma vez que Deus esteja a antever coisas más daquele, não suas. Pois a cavilação não pararia aqui; mas avançariam argumentando que, não obstante, se Deus o quisesse, poderia impedir os pecados que previra.347 Como não o fez, senão que criou o homem para que viva desta maneira no mundo, e a divina providência o colocou nesta condição, que necessariamente há de fazer quanto faz, não deve imputar-lhe esse crime, o qual não pode evitar e ao qual é compelido pela vontade de Deus. Portanto, vejamos como se deve resolver corretamente esta dificuldade.


Antes de mais nada, entre todos deve estar firmemente estabelecido o que diz Salomão: “O Senhor fez todas as coisas para atender a seus próprios desígnios, até


o ímpio para o dia do mal” [Pv 16.4]. Uma vez que esteja na mão de Deus a disposição de todas as coisas, quando reside em seu poder o arbítrio da salvação e da morte, em seu conselho e arbítrio assim ordena que entre os homens nasçam aqueles devotados à morte certa desde a madre, para que, por meio de sua condenação, lhe glorifiquemo nome. Caso alguém alegue que da providênciade Deus não se lhes impõe nenhuma necessidade, antes, porque sua depravação futura foi prevista, foram por ele criados nesta condição, este tal diria algo, porém não tudo. De fato os antigos costumam às vezes fazer uso desta solução, porém de forma duvidosa. Os escolastas, porém, descansam nela como se nada pudesse opor-se contra.


De minha parte concedo de bom grado que a mera presciência não impõe às criaturas nenhuma necessidade, ainda que nem todas concordem, pois há os que também querem que ela seja a própria causa das coisas. Com efeito, a mim parece haver Lourenço Valla enxergado mais aguda e mais sabiamente, homem este de outra sorte não grandemente versado nas coisas sagradas, o qual mostrou ser supérflua tal contenda, uma vez que tanto a vida, como também a morte, são atos mais da vontade divina do que da presciência divina. Se Deus apenas antevisse os eventos dos homens, contudo de seu Arbítrio também não os dispusesse e ordenasse, então, não sem causa, se agitaria a questão de se por acaso sua presciência tenha influência sobre sua necessidade. Quando, porém, não por outra razão haja de antemão visto as coisas que hão de acorrer, senão porque assim decretou que acontecessem, em vão se move litígio acerca da presciência, uma vez ser evidente que todas as coisas sucedem antes por sua ordenação e arbítrio.


7. A QUEDA DE ADÃO FOI PREORDENADA POR DEUS, E DAÍ A PERDIÇÃO DOS RÉPROBOS E DE SUA LINHAGEM


Negam que subsista em termos explícitos que por Deus foi decretado que Adão perecesse por sua apostasia. Como se realmente esse mesmo Deus, que a Escritura proclama “fazer tudo quanto quer” [Sl 115.3], haja criado a mais nobre de suas criaturas com um fim ambíguo! Dizem que foi apanágio do livre-arbítrio que ele próprio dispusesse seu destino; Deus, porém, não destinou nada, senão que o tratasse conforme seu mérito. Se tão insípida invenção for aceita, onde estará aquela onipotência de Deus pela qual, segundo seu conselho secreto, o qual de nenhuma outra coisa depende, a tudo governa e regula?


Com efeito, queiram ou não, a predestinação se exibe em todos filhos de Adão. Pois por obra da natureza não pode acontecer que, pela culpa de um único ancestral, todos fossem subtraídos da salvação. Que os proíbe de confessar em relação a um homem o que, relutantes, admitem em relação a todo o gênero humano? Ora, por que perderiam o trabalho tergiversando? A Escritura proclama que na pessoa de um só homem todos os mortais foram entreguesà morte eterna [Rm 5.12-18]. Isto, como não se pode imputar à natureza, mui longe de obscuro é que proceda do admirável conselho de Deus. É assaz absurdo que esses bons patronos da justiça de Deus fiquem perplexos diante de uma varinha, contudo saltem por sobre altas vigas!


De novo, pergunto: Donde vem que tanta gente, juntamente com seus filhos infantes, a queda de Adão lançasse, sem remédio, à morte eterna, a não ser porque a Deus assim pareceu bem? Aqui importa que suas línguas emudeçam, de outro modo tão loquazes. Certamente confesso ser esse um decreto espantoso. Entretanto, ninguém poderá negar que Deus já sabia qual fim o homem haveria de ter, antes que o criasse, e que ele sabia de antemão porque assim ordenara por seu decreto. Se alguém aqui investe contra a presciência de Deus, tropeça temerária e irrefletidamente. Ora, pergunto, por que se haja de ter o Juiz celestial culpado pelo fato de não ignorar o que haveria de acontecer? Por isso mesmo, se existe razão para queixa, ou justa ou ilusória, compete à predestinação. Nem deve parecer absurdo o que digo: Deus não só viu de antemão a queda do primeiro homem e nela a ruína de sua posteridade, mas também as administrou por seu arbítrio. Pois, como pertence à Sua sabedoria ser presciente de todas as coisas que haverão de acontecer, assim cabe ao seu poder com sua mão a tudo reger e regular. E também desta questão, como de outras, Agostinho dispõe magistralmente: “Confessamos ser mui saudável o que mui acertadamente cremos: que o Deus e Senhor de todas as coisas, que tudo criou muito bom[Gn 1.31], e viu de antemão que das coisas boas coisas más haveriam de surgir, e contudo conheceu por sua onipotente bondade ser mais pertinente fazer benefícios dos males do que não permitir que as coisas más viessem à existência, assim ordenou a vida de anjos e homens para que nela manifestasse antes o que pudesse o livre-arbítrio, e então o que pudesse o benefício de sua graça e o juízo de sua justiça.”348


8. A DISTINÇÃO EVOCADA ENTRE A VONTADE E A PERMISSIVIDADE DE DEUS É IRRELEVANTE


Aqui recorre-se à distinção de vontade e permissão, segundo a qual querem manter que os ímpios perecem pela mera permissão divina, não porque Deus assim


o queira. Mas, por que diremos que o permite, senão porque assim o quer? Pois não é provável que o homem tenha buscado sua perdição pela mera permissão de Deus, e não por sua ordenação. Como se realmente Deus não haja estabelecido em qual condição quisesse estar a principal de suas criaturas. Portanto, não hesitarei, com Agostinho,349 em simplesmente confessar que “a vontade de Deus é a necessidade das coisas”,e que haverá necessariamente de ocorrer aquilo que ele quis, da mesma forma que aquelas coisas que previu verdadeiramente haverão de vir à existência.


Agora, porém, se em defesa própria e dos ímpios, ou pelagianos, ou maniqueus, ou anabatistas, ou epicureus, pois com estas quatro seitas nos temos de haver nesta questão, invoquem a necessidade pela qual são constrangidos pela predestinação divina, nada alegam pertinente à causa. Pois, se a predestinação outra coisa não é senão a administração da justiça divina, embora oculta, porém irrepreensível, uma vez que é certo que não eram indignos de sua predestinação para tal fim, também é igualmente certo que a ruína em que caem pela predestinação divina é justa. Além disso, sua perdição de tal maneira pende da predestinação divina, que ao mesmo tempo há de haver neles a causa e a matéria dela. O primeiro homem, pois, caiu porque o Senhor assim julgara ser conveniente. Por que ele assim o julgou nos é oculto. Entretanto, é certo que ele não o julgou de outro modo, senão porque via daí ser, com razão, iluminada a glória de seu nome.


Onde ouves menção da glória de Deus, aí deves pensar em sua justiça. Ora, o que merece louvor tem de ser justo. Portanto, o homem cai porque assim o ordenou a providência de Deus; no entanto, cai por falha sua. Pouco antes o Senhor declarara que todas as coisas que fizera eram muito boas [Gn 1.31]. Portanto, donde procede essa depravação do homem pela qual se apartou de seu Deus? Para que não se pensasse proceder ela da criação, Deus aprovara com seu elogio o que proviera de si próprio. Logo, por sua própria malignidade o homem corrompeu a natureza pura que havia recebido do Senhor, e em sua ruína arrastou consigo à ruína toda a posteridade. Daí devermos contemplar a causa evidente de nossa condenação na natureza corrupta do gênero humano, que nos é mais próxima, antes que a busquemos, oculta e totalmente incompreensível, na predestinação de Deus. Nem nos envergonhemos em até este ponto submeter o entendimento à imensa sabedoria de Deus, que sucumba em seus muitos arcanos. Pois dessas coisas que nem é dado, nem é lícito saber, douta é a ignorância, uma espécie de loucura, a avidez de conhecimento.


9. REITERADA A IMPROCEDÊNCIA DA SEGUNDA OBJEÇÃO EM PAUTA, O HOMEM É INESCUSÁVEL NA CONDENAÇÃO A QUE É PREDESTINADO


Talvez alguém dirá que eu ainda não apresentei o que fizesse cessar esta sacrílega escusa. Eu, porém, confesso que de fato não se pode efetuar que a impiedade não frema sempre a e murmure em contrário. Contudo, quanto a mim tudo indica que já disse quanto bastasse para remover não só a razão de falar contra, mas até mesmo o mero pretexto. Os réprobos querem ser tidos como escusáveis no pecar, porque não podem evadir à necessidade de pecar, principalmente quando necessidade desta natureza lhes é imposta pela ordenança de Deus. Nós, na verdade, negamos retamente que daí haja escusa, visto que à ordenação de Deus, pela qual se queixam de ser destinados à ruína, a eqüidade lhe é manifesta, a nós de fato desconhecida, mas sendo a mesma infalível. Do quê concluímos que nada de mal eles sustém que não proceda do justíssimo juízo de Deus que lhes é infligido.


Além disso, ensinamos que agem contrariamente os que, em busca da origem de sua condenação, volvem os olhos para os recônditos acessos do conselho divino, mas que fecham os olhos à corrupção de sua natureza, da qual ela realmente jorra. Entretanto, para que não imputem esta corrupção a Deus, contrapõe-se o testemunho que ele apresenta em sua criação. Ora, ainda que o homem seja criado pela eterna providência de Deus, para essa miséria a que está sujeito, no entanto a causa lhe derivou de si próprio, não de Deus, visto que ele se perdeu por nenhuma outra razão, senão porque a viciosa e impura perversidade é a perversão da pura criação de Deus.


10. TERCEIRA OBJEÇÃO REFUTADA: A ELEIÇÃO IMPLICARIA FAVORITISMO DA PARTE DE DEUS, PARCIALIDADE E ACEPÇÃO DE PESSOAS, O QUE É CONTRÁRIO À ESCRITURA


Ora, seus adversários infamam também a predestinação divina como sendo um terceiro absurdo, porque, uma vez que não atribuímos a outro fator, senão ao arbítrio da vontade divina, que sejam eximidos da ruína universal aqueles aos quais Deus assume por herdeiros de seu reino, disto concluem, pois, que nele há acepção de pessoas, o que a Escritura, por toda parte, nega. Logo, ou a Escritura é em si mesma contraditória, ou na eleição divina há consideração de méritos.


Primeiro, a Escritura nega que Deus faça acepção de pessoas em outro sentido, não naquele em que julgam eles, pois que pelo vocábulo pessoa ela não quer dizer o homem, mas aquelas coisas que no homem, evidentes aos olhos, costumam ou conciliar favor, graça, dignidade, ou excitar ódio, desprezo, desonras, como riqueza, posses, poder, nobreza, magistrado, pátria, elegância de forma e outros desse gênero. Igualmente, pobreza, indigência, ignobilidade, descrédito, desprezo, e coisas afins. Assim, Pedro e Paulo ensinam que o Senhor não faz acepção de pessoas [At 10.34; Rm 2.11; Gl 2.6], visto que não faz distinção entre judeu e grego [Gl 3.28], de sorte que a um rejeite, a outro abrace em razão meramente da raça. Assim, Tiago


[2.5] usa das mesmas palavras quando quer declarar que Deus em seu juízo não leva em nenhuma conta as riquezas. Mas, Paulo, em outro lugar [Ef 6.9; Cl 3.25], assim fala a respeito de Deus: que em seu julgamento ele não leva em nenhuma consideração a liberdade ou a servidão. Conseqüentemente, não haverá desacordo algum se dissermos que, segundo o arbítrio de seu beneplácito, Deus elege por filhos, sem nenhum mérito, aqueles a quem bem lhe apraz, rejeitando e reprovando os demais.


Contudo, para que fiquem mais plenamente satisfeitos, podemos explicar assim: Perguntam como se explica que de dois indivíduos a quem nenhum mérito diferencia, Deus, em Sua eleição, exclua a um e se aproprie do outro. Eu, por minha vez, indago: Porventura crêem que há algo naquele que é eleito por Deus que faça a disposição divina inclinar-se em seu favor? Se confessarem, o que necessariamente se dará, nada haver, seguir-se-á que Deus não atenta para o homem; antes, por sua bondade busca a razão por que a agracie. Portanto, o fato de Deus eleger a uma pessoa e rejeitar a outra, isso não provém de consideração humana, mas de sua mera misericórdia, a qual deve ser livre para manifestar-se e expressar-se onde e quantas vezes lhe apraz. Ora, vemos também em outro lugar que “não foram chamados muitos nobres, ou sábios, ou opulentos”, para que Deus humilhasse a soberba da carne; daí, mui longe está que seu favor se vincule a pessoas! [1Co 1.26].


11. AOS ELEITOS DEUS OS PREDESTINA EM FUNÇÃO DE SUA MISERICÓRDIA; AOS RÉPROBOS, EM FUNÇÃO DE SUA JUSTIÇA


Portanto, alguns acusam a Deus, falsa e mui perversamente, de justiça parcial, porque em sua predestinação não conserva para com todos o mesmo teor. Se, dizem eles, Deus vê a todos como culpados, então que puna a todos de igual modo; se são inocentes, então que afaste de todos o rigor de seu juízo. Com efeito, agem com ele exatamente como se sua misericórdia fosse interditada, ou, enquanto a quer usar, é totalmente compelido a renunciar ao juízo. Que é que estão insistentemente a exigir? Se todos são culpados, que todos juntamente paguem a mesma pena. Admitimos a culpa geral, mas afirmamos que a alguns a misericórdia divina os socorre. Então socorra, insistem, a todos. Ressalvamos, porém, que é justo que o Juiz se mostre justo punindo.


Enquanto não admitem tal coisa, que mais pretendem senão ou despojar a Deus da capacidade de exercer misericórdia, ou ao menos permiti-la com esta condição: que ele abdique inteiramente ao juízo? Portanto, estas afirmações de Agostinho350 se enquadram mui esplendidamente: “Uma vez que, no primeiro homem, toda a massa do gênero humano caiu na condenação, os vasos que desta massa são feitos para honra são vasos não de justiça pessoal, mas da misericórdia de Deus. Que outros, porém, sejam feitos para desonra, isso deve ser lançado à conta não da iniqüidade, mas do juízo etc.” “Porque Deus dá em paga a pena devida àqueles a quem rejeita, àqueles a quem chama prodigaliza graça imerecida, está liberado de toda acusação, à semelhança do credor em cujo poder está perdoar a um sua dívida, e exigi-la de outro.”351 Portanto, o Senhor pode também dar graça àqueles a quem bem quiser, porque é misericordioso; não dar a todos, porque é Juiz justo. Dando a alguns o que não merecem, manifesta sua graça gratuita; não dando a todos, declara


o que todos merecem.”352 Quando, pois, Paulo escreve que “Deus encerrou tudo debaixo do pecado, para que de tudo tenha misericórdia” [Rm 11.32], deve-se ao mesmo tempo acrescentar que a ninguém é devedor, “porquanto ninguém lhe deu primeiro, para que exija de volta o pagamento” [Rm 11.35].


12. QUARTA OBJEÇÃO REFUTADA: A DOUTRINA DA PREDESTINAÇÃO DESESTIMULA O ZELO E EMPENHO POR UM VIVER ÍNTEGRO E VIRTUOSO


Para lançar por terra a predestinação, servem-se também disto: que, prevalecendo ela, sucumbem toda solicitude e zelo de agir corretamente. Ora, dizem eles, quem ouvir que Deus fixou ou sua vida ou sua morte por um decreto eterno e imutável, que prontamente não lhe venha à mente que nada interessa como se conduza, uma vez que nada pode impedir a predestinação divina nem promover sua atuação? Assim sendo, todos se arremeterão, e de maneira desbragada se precipitarão para onde quer que os arraste a concupiscência. E obviamente não estão mentindo totalmente, pois que há muitos suínos que conspurcam a doutrina da predestinação com essas impuras blasfêmias, e, até com este pretexto, evadem a todas e quaisquer advertências e censuras: “Deus sabe muito bem o que uma vez determinou fazer conosco; se determinou salvar-nos, quando chegar a hora nos salvará; e se decidiu condenarnos, é inútil nos atormentarmos em vão para salvar-nos.”353


A Escritura, porém, enquanto preceitua com quanto reverência, mas também piedade, devemos meditar em tão grande mistério, tanto aos piedosos instrui em sentido muito diverso, quanto desses cabalmente refuta o celerado destempero. Ora, a predestinação não é celebrada para que sejamos alçados a audácia e tentemos perscrutar por nefária temeridade os inacessíveis segredos de Deus; antes, pelo contrário, para que, humilhados e prostrados, aprendamos a tremer ante seu juízo e a mirar-lhe a misericórdia. Portanto, todos os fiéis avançarão rumo a este alvo.354


Mas esse repelente grunhido de suínos é por Paulo corretamente contido. Dizem prosseguir seguros em seus desregramentos porque, se forem do número dos eleitos, os desregramentos nada haveriam de impedir a que, finalmente, sejam conduzidos à vida. Com efeito, Paulo adverte que fomos eleitos para este fim: para que levemos uma vida santa e irrepreensível [Ef 1.4]. Se o alvo da eleição é santidade de vida, ela deve despertar-nos e estimular ainda mais a alegremente praticá-la do que valer para pretexto de indolência. Pois, quão grandemente dissentem entre si estas duas coisas: cessar de agir bem, porque a eleição basta para a salvação; e o homem é eleito para que se exercite ao zelo do que é bom! Fora, pois, com sacrilégios desta ordem, que indevidamente invertem toda a ordem da eleição!


Suas blasfêmias se estendem ainda mais longe quando dizem que haverá de perder seu tempo aquele que for rejeitado por Deus, se por inocência e probidade de vida diligencie por ser aprovado por ele, nisto são de fato argüidos da mais impudentefalsidade. Donde, pois, pode nascer tal diligência senão da eleição? Ora, todos quantos são do número dos réprobos, uma vez que são vasos plasmados para desonra, por isso não cessam de provocar a ira de Deus contra si mesmos mediante perpétuas abominações e de evidentes sinais confirmar que já contra si foi proferido o juízo de Deus, tão longe está de que com ele contendam em vão!


13. IMPROCEDÊNCIA DA OBJEÇÃO QUE SUSTENTA SEREM AS EXORTAÇÕES A UM VIVER PIEDOSO INÚTEIS E DESNECESSÁRIAS, NEM SE DEVE ENSINAR A PREDESTINAÇÃO PARA NÃO EMPEDERNIR OS INCRÉDULOS


Maldosa e impudentemente, contudo, outros caluniam esta doutrina, como se ela anulasse o efeito de todas as exortações a um viver piedoso. Acerca desta maté-ria grande malevolência sofreu outrora Agostinho, malevolência que dissipou com seu livro De Correptione et Gratia: Ad Valentinum [Da Correção e da Graça: A Valentino], cuja leitura agradará prontamente a todos os piedosos e dóceis. Entretanto, aqui abordareiapenas umas poucas coisas, as quais, segundo espero, haverão de satisfazer aos probos e não-contenciosos.


Quão declarado e eloqüente pregoeiro da eleição graciosa foi Paulo, já se viu previamente. Porventura ele foi, por isso, frio em advertir e exortar? Comparem estes bons zelotesa veemência dele com a sua: achar-se-á neles antes gelo em vez de incrível fervor daquele. E na verdade, este princípio remove todas as dificuldades: não fomos chamados à imundície [1Ts 4.7], mas, ao contrário, “para que cada um possua seu vaso em honra” etc. [1Ts 4.4]; então, que “somos feitura de Deus, cria-dos para as boas obras que foram preparadas de antemão para que nelas andemos” [Ef 2.10]. Em suma, aqueles que são medianamente versados em Paulo compreenderão, sem demonstração de longa, quão aptamente concilie ele coisas que estes imaginam pugnarem entre si. Assim, Cristo preceitua que se creia nele. Todavia, sua determinação nem é falsa, nem contrária ao preceito, quando diz: “Ninguém pode vir a mim, senão aquele a quem foi dado por meu Pai” [Jo 6.65].


Portanto, que esta doutrina tenha seu curso de pregação, pregação esta que conduza os homens à fé e, com proveito contínuo, os mantenha na perseverança. Nem tampouco seja impedido o conhecimento da predestinação, para que aqueles que obedecem não se ensoberbeçam como se proviesse deles mesmos, mas se gloriem no Senhor. Não sem causadiz Cristo: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” [Mt 13.9]. Portanto, quando exortamos e pregamos, os que são dotados de ouvidos de bom grado obedecem; os que, porém, carecem de ouvidos, neles se cumpre o que foi escrito: “Para que, ouvindo, não ouçam” [Is 6.9]. “Mas, por que”, diz Agostinho, “aqueles os possuem e estes não? ‘Quem conheceu a mente do Senhor?’ [Rm 11.34]. Porventura por isso se deve negar o que é evidente, só porque não se pode compreender o que é oculto?”355


Tudo isso tomei fielmente de Agostinho. Mas, visto ser bem provável que suas palavras sejam de mais autoridade que as minhas, então que venham a lume os próprios termos que nele se lêem: “Se alguns”, diz ele, “depois de ouvir isto se entregam à negligência e abandonando todo o esforço se vão após seus apetites e desejos, devemos por esta causa concluir que é falso o que se disse da presciência de Deus? Se Deus conheceu de antemão que eles haveriam de ser bons, porventura não serão bons, por maior que seja a degradação em que agora se revolvam? E se conheceu de antemão que seriam maus, porventura não serão maus, por maior que seja a bondade em que agora se vejam? Portanto, porventura ou devam ser negadas ou caladas em razão de causas desta natureza as coisas que dizem ser verdadeiras acerca da presciência de Deus, então, especialmente quando se cala, se cai em outros erros?”356 “Uma”, diz ele, “é a razão de calar o verdadeiro, outra a necessidade de dizer o verdadeiro. Seria muito longo procurar saber todas as coisas para calar o verdadeiro, das quais, no entanto, uma é esta: que não se tornam piores os que não entendem, quando queremos fazer mais doutos aqueles que entendem, os quais, dizendo nós algo desse gênero, de fato não se fazem mais doutos, mas tampouco piores se tornam. Supondo, pois, que dizer a verdade produza o efeito de que ao dizermo-la, o que não a entende se faça pior, e que se a calarmos, o que a pode entender corra algum risco, o que deveríamos fazer em tal caso? É que não deveríamos dizer a verdade para que os que a podem entender a entendam, e não calar, de maneira que ambos fiquem ignorantes, e que mesmo o mais entendido se faça pior, quando a devia ouvir e entender, outros muitos a aprenderiam por meio dele? E não queremos dizer o que era lícito dizer, como o atesta a Escritura. Ora, certamente tememos que, falando nós, se ofenda aquele que não pode receber a verdade; porém não tememos que, silenciando nós, aquele que pode receber a verdade seja apanhado pela falsidade.”357


Mais, afinal, condensando resumidamente esta opinião, ele a confirma ainda mais claramente: “Por essa razão, se os apóstolos e os doutores da Igreja que as seguiram fizeram uma e outra destas duas coisas – tratar piedosamente da eterna eleição dos fiéis e mantê-los sob a disciplina de uma vida pia –, por que é que, cercados da invencível potência da verdade, esses nossos doutores pensam falar corretamente que não se deve pregar essa doutrina ao povo, ainda que seja verdadeiro o que se diz da predestinação? De fato, impõe-se pregá-la irrestritamente, para que aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça [Mt 11.15; Mc 4.9; Lc 8.8]. Quem, no entanto, os tem, se os não recebeu daquele que promete havê-los de dar? Por certo que aquele que não recebe rejeite, enquanto que, aquele que recebe, recebe-a, tome dela e a beba, beba e viva. Pois, assim como a piedade deve ser pregada, para que Deus seja corrretamente cultuado, assim também a predestinação, para que, quem tem ouvidos para ouvir, se glorie na graça de Deus e em Deus, não em si próprio.”358


14. O MODELO EM AGOSTINHO DE COMO PROCLAMAR-SE BEM A PREDESTINAÇÃO


E, contudo, como teve esse santo varão empenho singular de edificação, de tal forma ele modera a maneira de ensinar a verdade, que sabiamente se guarda até onde possível de causar escândalo. Ora, ele lembra que as coisas que com verdade se dizem podem, ao mesmo tempo, ser ditas de maneira conveniente. Se alguém assim se dirija ao vulgo: “Se não credes, isso acontece porque já fostes divinamente destinados à perdição”, esse não só fomenta a negligência, mas também encoraja a prática do mal. Se alguém também estende para o tempo futuro a afirmação de que os que ouvem não crêem, porquanto foram condenados, será imprecação mais do que ensino. Agostinho quer359 que essa classe de pessoas, e com toda razão, não tem nada a ver com a Igreja, visto que carecem do dom de ensinar e atemorizam as pessoas simples ignorantes.360 Em outro lugar,361 ele contende, certamente com razão, que se deve manter “que o homem então aproveita a correção quando Aquele que faz aproveitar, mesmo sem correção, se compadece e ajuda aqueles a quem assim o quis. Mas, por que ajuda assim a este, e de outro modo àquele? Longe de nós dizermos que o juízo é do barro, não do oleiro!” Igualmente, em seguida: “Quando os homens, mediante a correção, voltam ao caminho da justiça, quem no coração lhes opera a salvação, senão Aquele que dá o crescimento, sem importar quem planta ou rega [1Co 3.6-8], a quem, quando o quer salvar, nenhum livre-arbítrio humano resiste? Portanto, não se pode duvidar que a vontade humana não possa resistir à vontade de Deus, “que fez tudo quanto quis no céu e na terra” [Sl 135.6] e que fez também as coisas que haverão de existir [Is 45.11], de tal maneira que ele não faça o que quer, quando da própria vontade dos homens ele faz o que quer.”362 Ainda: “Quando quer conduzir a si os homens, porventura os ata com liames corporais? Age interiormente, sustêm-lhes interiormente o coração, move-lhes interiormente o coração, e com sua vontade que neles operou, os atrai.”363 Mas, de modo nenhum se deve omitir o que adiciona logo a seguir: “Porque não sabemos quem pertença ao número dos predestinados, ou não pertença, assim nos convêm tratar a todos, querendo que venham a ser salvos. Assim procuraremos fazer com que todos sejam participantes de nossa paz.364 Mas, nossa paz repousará somente sobre os filhos da paz [Mt 10.13; Lc 10.6]. Portanto, quanto a nós concerne, deverá ser aplicada a todos, à semelhança de um remédio, correção salutar e severa, para que eles mesmos não pereçam, ou não levem outros a perder-se. A Deus, porém, caberá fazê-la eficaz àqueles a quem conheceu de antemão e predestinou.”365




C A P Í T U L O XXIV

A ELEIÇÃO É CONFIRMADA PELAVOCAÇÃO DIVINA, MAS OS RÉPROBOS ENGENDRAM PARA SI A JUSTA PERDIÇÃO À QUAL FORAM DESTINADOS



1. A VOCAÇÃO EFICAZ RESULTA DA ELEIÇÃO E PROCEDE DA MERA GRAÇA DIVINA


Mas, para que a matéria se aclare melhor, tem-se de tratar tanto da vocação dos eleitos, quanto da cegueira e do endurecimento dos ímpios. Quanto à primeira parte, realmente já falei algo, refutando o erro daqueles a quem a universalidade das promessas parece nivelar todo o gênero humano. Com efeito, não sem diferenciação, afinal por sua vocação Deus manifesta a eleição, que, de outra sorte, mantém oculta em si mesmo, vocação que, por isso, é lícito chamar propriamente de sua atestação. Ora, “aqueles a quem de antemão conheceu, a esses também predestinou para que se tornassem conformes à imagem de seu Filho; aos que de antemão predestinou, a esses também chamou; aos que chamou, a esses também justificou; aos que justificou, a esses também glorificou” [Rm 8.29, 30].


Embora ao eleger aos seus, já os houvesse o Senhor adotado na posição de filhos, entretanto vemos que não vêm à posse de tão grande bem, a não ser quando são chamados; por outro lado, quando chamados, desfrutam já de certa comunicação de sua eleição. Por essa razão, Paulo chama o Espírito que recebem não somente de “Espírito de adoção” [Rm 8.15], mas também de “selo e penhor da herança futura” [Ef 1.13, 14; também 2Co 1.22; 5.5], porquanto, de fato, por seu testemunho, no coração lhes estabelece e sela a certeza da adoção futura. Ora, visto que a pregação do evangelho jorra da fonte da eleição, no entanto, visto que ela é comum também aos réprobos, em si não seria prova sólida. Deus, porém, ensina eficazmente os seus eleitos, para que os conduza à fé, como já citamos de antemão das palavras de Cristo: “Quem procede de Deus, este”, não outro, “vê o Pai” [Jo 6.46]. Igualmente: “Manifestado teu nome aos homens que me deste” [Jo 17.6]. Como diz em outro lugar: “Ninguém pode vir a mim, a não ser que seja trazido por meu Pai” [Jo 6.44], passagem que Agostinho expõe sabiamente, cujas palavras são: “Se, como diz a verdade, todo aquele que aprendeu vem [Jo 6.45], todo aquele que não vem, certamente nem aprendeu. Não se segue, pois, que quem pode vir também venha, a não ser que o haja querido e o haja feito; contudo, todo aquele que aprendeu do Pai não só pode vir, mas também vem, onde já está presente o proveito da possibilidade, a disposição da vontade e o efeito da ação.”366 Mais claramente ainda, em outro lugar: “Que significa ‘Todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai vem a mim’ [Jo 6.45], senão que não há ninguémque ouça e aprenda do Pai e que não venha a mim? Ora, se todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem, sem dúvida todo aquele que não vem não ouviu do Pai, nem aprendeu, porque, se houvesse ouvido e aprendido, viria. Mui remota é esta escola dos sentidos da carne, na qual o Pai é ouvido e ensina que se venha ao Filho.”367 Pouco depois: “Esta graça, que é secretamente conferida aos corações humanos, não é recebida por nenhum coração duro, é conferida para que seja primeiramente extirpada a dureza do coração. Quando, pois, o Pai é ouvido interiormente, ele remove o coração de pedra e dá um coração de carne [Ez 11.19; 36.26]. Assim, realmente os faz filhos da promessa e vasos da misericórdia, que para glória preparou. Por que, pois, não ensina a todos para que venham a Cristo, senão porque a todos aos quais ensina, os ensina em misericórdia; mas, aos que não ensina, não os ensina em juízo, ‘visto que ele se compadece de quem quer, e a quem quer endurece’”?368 [Rm 9.18]. Logo, aos que Deus elegeu, os designa a si por filhos e se nomeia seu Pai. Ademais, chamando-os, os admite à sua família e os agrega a si mesmo, para que juntamente sejam um.


Quando, porém, a vocação se associa à eleição, com isso a Escritura indica suficientemente que nela nada se deve buscar, exceto a graciosa misericórdia de Deus. Pois, se indagarmos a quem ele chama, e por qual razão, responde: aos que elegera. Mas quando se chega à eleição, então só a misericórdia esplende por toda parte. E de fato aqui esta observação de Paulo tem realmente lugar: “Não é de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus usar de compaixão” [Rm 9.16]. E não se deve entender isto – como comumente se entende – estabelecendo uma divisão entre a graça de Deus e a vontade do homem. Porque explicam que o desejo e o esforço do homem por si sós para nada servem se a graça de Deus não os abençoar e fazer prosperar; mas, ainda que sejam assistidos por sua bênção, acrescentam que também têm seu papel em operar a salvação.


Prefiro refutar-lhes a cavilação com palavras de Agostinho antes que com as minhas: “Se o Apóstolo não quis dizer outra coisa, senão que não é simplesmentedo que quer ou do que corre, mas de o Senhor misericordioso o assistir, será lícito replicar, em contrário, que não é só da misericórdia, a menos que a vontade e a ação do homem a assistam. Se istoé nitidamente ímpio, não duvidemos de que o Apóstolo atribui tudo à misericórdia do Senhor, sem deixar nada para nossa vontade ou nossos esforços.” Estas são as palavras desse santo varão.


Tampouco tenho em alguma contao pobre sofismaque impingem, de que Paulo não teria dito isso, a não ser que houvesse em nós algum esforço e alguma vontade. Porque ele não levou em conta o que há no homem, senão que, vendo que alguns atribuíam uma parte de sua salvação ao seu esforço, simplesmente condena no primeiro membro o erro dos mesmos; e em seguida aplica e imputa totalmente a salvação à misericórdia de Deus. E que outra coisa fazem os profetas senão proclamar perenemente a vocação graciosa de Deus?


2. A PRÓPRIA ADMINISTRAÇÃO DA VOCAÇÃO EFICAZ, A RESULTAR DA PREGAÇÃO DA PALAVRA E DA ILUMINAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO, EVIDENCIA SER ELA OBRA DA MERA GRAÇA DIVINA


Além disso, também a própria natureza e administração da vocação demonstram isto claramente, as quais não subsistem só pela pregação da Palavra, mas também da iluminação do Espírito. A quem Deus ofereça sua Palavra, o temos no Profeta: “Fui buscado dos que não perguntavam por mim, fui achado daqueles que não me buscavam; a uma nação que não se chamava do meu nome eu disse: Eis-me aqui, eis-me aqui” [Is 65.1]. E para que os judeus não pensassem que esta clemência pertencia só aos gentios, também lhes traz à lembrança de onde o pai Abraão fora tomado, quando se dignou chamá-lo para si, aliás do meio da idolatria, na qual havia submergido com todos os seus [Js 24.2, 3].


Quando Deus se mostra com a luz de sua Palavra aos que não o mereciam, nisso exibe evidência mui luminosa de sua graciosa bondade. Aqui, pois, já se manifesta a imensa bondade de Deus, mas não a todos para salvação, porque aos réprobos espera juízo mais grave, porquanto rejeitam o testemunho do amor de Deus. E também Deus, a fim de realçar sua glória, subtrai deles a eficiência de seu Espírito. Portanto, esta vocação interior é o penhor da salvação, o qual não pode enganar. O que é pertinente essa afirmação de João: “Daí sabemos que somos seus filhos: que nos deu de seu Espírito” [1Jo 3.24; também 4.13]. E para que a carne não se glorie de que ao menos lhe respondeu ao chamado e se ofereceu espontaneamente, afirma que não havia nenhum ouvido para ouvir, nem olhos para ver, senão aqueles que ele próprio fez. Ele os fez, porém, não segundo a gratidão de cada um, mas em função de sua eleição.


Insigne exemplo tensdesta matériaem Lucas, onde judeus e gentios em comum ouvem a pregação de Paulo e Barnabé. Embora então todos fossem instruídos com a mesma palavra, narra-se que só creram “aqueles que haviam sido ordenados para a vida eterna” [At 13.48]. Como, pois, nos atreveremos a negar que a vocação é gratuita, quando nela resplandece por toda parte unicamente a eleição?369


3. A ELEIÇÃO NÃO DEPENDE DO ASSENTIMENTO HUMANO, NEM MESMO DA FÉ


Mas é preciso que nesta matéria nos guardemos bem de cair em dois erros. Visto que alguns fazem o homem colaborador com Deus, assim fazem a eleição ser retificada por seu assentimento; conseqüentemente, segundo eles, a vontade do homem é superior ao conselhode Deus. Como se de fato a Escritura ensinasse que apenas se nos concede a possibilidade de crermos, e não que a própria fé é um dom de Deus! Outros, embora não recebam a graça do Espírito Santo, entretanto, induzidos não sei de que razão, fazem a eleição dependente dessa última, como se a eleição fosse dúbia, e mesmo ineficaz, até que seja confirmada pela fé! Por certo não há dúvida de que o crer se confirma quanto a nós. Vimos antes que também se manifesta o conselho secreto de Deus que jazia oculto, contanto que com esta linguagem outra coisa não se entenda senão ser comprovado o que era desconhecido, e como que selado com um selo.


Mas é falsa sua opinião de que a eleição só começa a ser eficaz quando abraçamos o evangelho, e que daqui assume toda sua força e vigor.370 É verdade que, pelo que a nós se refere, segundo se diz, recebemos do evangelho a certeza da mesma; porque, se tentássemos penetrar no eterno decreto e ordenação de Deus, seríamos tragados por esse abismo profundo. Quando, porém, Deus no-la manifesta, importa subirmos mais alto, para que o efeito não suplante a causa. Pois quando a Escritura nos ensina que fomos iluminados conforme Deus nos elegeu, que mais absurdo e indigno que nossos olhos sejam ofuscados pelo fulgor desta luz, a tal ponto que se recusem a atentar para eleição? Entrementes, tampouco nego que, para que sejamos seguros de nossa salvação, o início deve provir da Palavra e nela deve estar contida nossa confiança para que invoquemos a Deus por Pai. Ora, certos indivíduos, para que se tornem mais seguros do conselho de Deus, que nos está próximo, na boca e no coração [Dt 30.14], contrariamente anseiam poder pairar acima das nuvens. Portanto, essa temeridade deve ser coibida pela sobriedade da fé, para que Deus nos seja testemunha eficiente de sua graça oculta, que nos revela em sua Palavra; contanto que este canal, pelo qual corre a água em grande profusão para que bebamos dela, não impeça que a verdadeira fonte tenha a honra que lhe é devida.


4. NA PALAVRA E NA EXPERIÊNCIA RESIDE A GARANTIA E CERTEZA DA ELEIÇÃO


Portanto, como procedem incorretamente os que fazem a realidade da eleição pendente da fé ministrada no evangelho, mercê da qual sentimos pertencer-nos aquela, assim manteremos a melhor ordem se, buscando a certeza de nossa eleição, nos apeguemos a esses sinais subseqüentes que lhe são evidências seguras. De nenhuma tentação, quer mais grave ou mais perigosa, abala Satanás aos fiéis do que, quando, inquietando-os com dúvida de sua eleição, ao mesmo tempo os incita, por desejo depravado, a buscá-la fora do caminho. Buscar fora do caminho, digo, quando um mísero homem tenta irromper pelos recônditos recessos da divina sabedoria e, para que saiba o que foi a seu respeito estabelecido no tribunal de Deus, tenta penetrar até a suma eternidade. Pois então está a precipitar-se ao fundo de imensa voragem para ser por ela tragado; em seguida, enredilha-se em inumeráveis e inextricáveis laços; então, enterra-se no abismo de cega caligem. Pois é justo que o desvario do engenho humano seja castigado com uma ruína horrível e total destruição, quando tenta por seu próprio poderelevar-se até à altura da sabedoria divina. E tanto mais mortal é esta tentação, porque a nenhuma outra quase todos nós somos mais propensos.


Com efeito, raríssimo é aquele cuja mente não seja, de quando em quando, ferida por esta cogitação: Donde vem tua salvação, senão da eleição divina? E quem te revelou que és eleito?371 Se em alguém uma vez prevaleceu estacogitação, ou perpetuamente fere ao mísero de terríveis tormentos, ou totalmente o deixa atônito. Real-mente não poderia desejar melhor argumento do que esta experiência, para provar e demonstrar quão perversamente esta classe de pessoas. Porque o entendimento humano não pode ver-se afetado com um erro mais pestilento que perder a tranqüilidade, a paz e o repouso que deveria ter em Deus, quando a consciência se vê alterada e turbada desta maneira. Portanto, se tememos naufrágio, impõe-se diligentemente acautelar-nos deste escolho contra o qual nunca se é impelido sem destruição. E, na verdade, ainda que se tenha a discussão da predestinação semelhante a um mar perigoso, no entanto, ao percorrê-lo, a navegação se patenteia segura e tranqüila, aliás, até mesmo agradável, a menos que alguém se disponha, deliberadamente, a incorrer em perigo. Ora, assim como em mortal abismo se engolfam os que, a fim de que mais seguros se façam de sua eleição, perquirem o eterno conselho de Deus à parte da Palavra, assim também os que a investigam corretamente e em ordem, como se contém na Palavra, daí recebem excelente fruto de consolação. Seja-nos, pois, esta a normade inquirir: que tomemos início da vocação de Deuse nela findemos.


Todavia, isto não impede que os fiéis sintam provirem dessa recôndita adoção os benefícios que recebem diariamente da mão de Deus, como falam em Isaías: “Fizeste maravilhas; teus conselhos antigos são verdade e firmeza” [Is 25.1], quando através dela, como se por uma senha, Deus nos quer confirmar quanto é feito saber-se de seu conselho. Mas para que a alguém este testemunho não pareça fraco, consideremos quanto ele nos propicia não só de clareza, mas também de certeza. Acerca desta matériamuito a propósito se expressa Bernardo. Ora, depois que falou a respeito dos réprobos, diz ele: “Firme está o propósito de Deus, firme está sua sentença de paz sobre os que o temem, não só lhes desconsiderando os atos maus como também recompensando os bons, de sorte que, de modo admirável, para o bem lhes cooperam não apenas as coisas boas, mas ainda as más. ‘Quem acusará os eleitos de Deus?’ [Rm 8.33]. A mim é suficiente, para toda justiça, ter propício apenas esse contra quem tenho pecado. Tudo o que ele não decretou imputar a mim, é como se não haja existido.”372 E, pouco depois: “Ó lugar de verdadeiro descanso e que eu referiria não impropriamente pelo designativo de aposento, no qual Deus é contemplado não como que conturbado em ira, nem como se prostrado em preocupação, mas, pelo contrário, nele sua vontade prova ser boa, benevolente e perfeita! Esta visão não aterra, pelo contrário, tranqüiliza; não excita curiosidade inquieta, pelo contrário, a abranda; nem fatiga os sentidos, pelo contrário, os aquieta. Aqui verdadeiramente se descansa. O Deus tranqüilo a tudo tranqüiliza e contemplar repouso é repousar.”373


5. EM CRISTO, E TÃO-SOMENTE NELE, A ELEIÇÃO SE BASEIA, SE EFETUA E SE ASSEGURA


Antes de tudo, se buscamos a paterna clemência de Deus e seu ânimo propício, nossos olhos têm que se volver para Cristo, em quem tão-só repousa o Espírito do Pai [Mt 3.17; Mc 1.11; Lc 3.22]. Se buscamos a salvação, a vida e a imortalidade do reino celeste, então há de se buscar também refúgio não em outro, quando somente ele é a fonte da vida, a âncora da salvação, o herdeiro do reino dos céus. Ora, a que visa a eleição senão a que, adotados pelo Pai celestial na posição de filhos, por seu favor obtenhamos salvação e imortalidade? Por mais que a revolvas e esquadrinhes, no entanto compreenderás que seu fim último não se estende para além disso. Conseqüentemente, aqueles a quem Deus tomou para si por filhos, não se diz que foram eleitos em si próprios, mas em seu Cristo [Ef 1.4], porquanto somente nele podia amá-los, nem os podia honrar com a herança de seu reino, a não ser que antes os fizesse co-participantes dele. Porque, se nele fomos eleitos, acharemos a certeza de nossa eleição não em nós mesmos, e de fato nem em Deus, o Pai, se o imaginamos isoladamente à parte do Filho. Cristo é, pois, o espelho no qual é indispensável que, sem engano, contemplemos nossa eleição. Porque, sendo ele Aquele a cujo corpo o Pai determinou incorporar a quem desde a eternidade quis que fossem seus, de forma que tenha como filhos a todos quantos reconhece como membros do mesmo, temos um testemunho solidamente firme e evidente de que estamos escritos no livro da vida [Ap 21.27], se mantemos comunhão com Cristo.374


Com efeito, ele nos dotou de sua segura comunhão, quando, mediante a pregação do evangelho, testificou nos haver sido dado pelo Pai, para que fosse nosso juntamente com todas as suas boas coisas [Rm 8.32]. Diz-se que somos revestidos dele [Rm 13.14], que nele crescemos [Ef 4.15] para que vivamos, porque ele vive. Tantas vezes se repete este ensino: o Pai não poupou ao Filho Unigênito [Rm 8.32], “para que quem nele crê não pereça [Jo 3.16]”. Aquele, porém, “que nele crê”, dizse que “passou da morte para a vida” [Jo 5.24]. Neste sentido, ele se chama o pão da vida [Jo 5.35], o qual quem o comer jamaismorrerá [Jo 6.51, 58]. Afirmo ainda que ele é quem testificou que a todos os que o receberem pela fé, o Pai os terá por filhos. Se desejamos algo mais do que sermos contados entre os filhos e herdeiros de Deus, faz-se necessário que subamos acima de Cristo. Se estanos é a meta suprema, quão grandemente desvairamos buscando fora dele o que não só já conseguimos nele, mas também só se pode achar nele?


Além disso, uma vez que Cristo seja a eterna sabedoria do Pai, sua imutável verdade, seu firme conselho, não há por que temer que o que nos disse em sua Palavra dissinta sequer um mínimo daquela vontade do Pai que buscamos, senão que, antes, no-lo revela fielmente qual foi desde o princípio e como sempré haverá de ser. A aplicação prática desta doutrina deve vigorar também em nossas preces. Ora, ainda que a fé baseada em nossa eleição nos anima a invocar a Deus, entretanto, quando formulamos nossas orações, absurdo seria impô-la a Deus, ou impor um acordo com esta condição: “Senhor, se fui eleito, então que me ouças”, quando ele quer que estejamos contentes com suas promessas, tampouco que busquemos em outro lugar se porventura ele nos haja de ser clemente. Esta prudência nos desvencilhará de muitos laços, se sabemos acomodar o uso certo o que foi escrito retamente, porém não arrastemos inconsideradamente para aqui e para ali o que deveria ser restringido.


6. TEMOS NA COMUNHÃO COM CRISTO O PENHOR DE NOSSA ELEIÇÃO, QUE NOS FAZ OVELHAS DE SUA IGREJA E NOS MANTÉM PERSEVERANTES NA FÉ


Para que a confiança nos seja estabilizada, acrescenta-se outra confirmação da eleição, a saber, que ela se associa à nossa vocação. Ora, aqueles a quem, iluminados pelo conhecimento de seu nome, Cristo acolhe no seio de sua Igreja, a esses se diz que ele os recebe a seu cuidado e tutela. Mas, a todos quantos recebe, lemos que à sua guarda são confiados e entregues pelo Pai, para que sejam custodiados à vida eterna. Que mais podemos desejar? Em alta voz, Cristo proclama que todos quantos


o Pai queira que sejam salvos, a esses os trouxe à sua proteção [Jo 6.37-39; 17.6, 12]. Portanto, caso se queira saber se porventura Deus se preocupa com nossa salvação, indaguemos se porventura ele nos confiou a Cristo, a quem constituiu Salvador único de todos os seus. Ora, se nutrirmos dúvida se porventura fomos recebidos por Cristo à sua proteção e custódia, ele corre ao encontro de nossa dúvida, quando espontaneamente se nos oferece por pastor e declara que faremos parte do número de suas ovelhas, se ouvirmos sua voz [Jo 10.3, 16]. Portanto, abracemos a Cristo que benignamente nos é posto diante dos olhos e vem vindo ao nosso encontro. Ele, porém, nos contará em sua grei e nos conservará encerrados no meio de seus apriscos.


Entretanto, nos sobrevém ansiedade acerca de nosso estado futuro. Ora, como Paulo ensina que os que antes foram eleitos são chamados [Rm 8.30], assim Cristo mostra que “muitos têm sido chamados, porém poucos os escolhidos” [Mt 22.14]. Além disso, até mesmo Paulo, em outro lugar, também dissuade de excessiva confiança: “Aquele que está em pé”, diz ele, “veja que não caia” [1Co 10.12]. Igualmente: “Foste enxertado no povo de Deus; não te ensorberbeças; pelo contrário, teme, pois Deus pode cortar-te de novo, para que enxerte a outros” [Rm 11.20-23]. Final-mente, somos suficientemente ensinados pela própria experiência que a vocação e a fé são de pouca valia, a menos que se adicione a perseverança, a qual não se destina a todos. Ora, Cristo nos livrou desta solicitude, porque sem dúvida estas promessas apontam para o futuro: “Todo que o Pai me dá esse virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” [Jo 6.37]; de igual modo: “E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia” [Jo 6.39]; ainda: “Minhas ovelhas ouvem minha voz, e eu as conheço e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca perecerão, e ninguém as arrebatará de minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai” [Jo 10.27-29]. E quando diz que “toda árvore que meu Pai não plantou será arrancada” [Mt 15.13], acena em contrário que todos os que têm suas raízes fincadas em Deus jamais poderão ser desarraigados da salvação. Com isto está de acordo este parecer de João: “Se fossem de nós, ficariam conosco” [1Jo 2.19].

        Daqui também a magnífica exultação de Paulo em relação à vida e à morte, às coisas presentes e às futuras [Rm 8.38, 39], que importa que a glória esteja fundada no dom da perseverança. Nem padece dúvidaque ele dirija esta palavra a todos os eleitos. Em outro lugar, diz o mesmo Paulo: “Aquele que começou em vós a boa obra a completará até o dia de Cristo” [Fp 1.6]. Assim também Davi, como sua fé periclitasse, neste sustentáculo se reclinou: “Não desampararás a obra de tuas mãos” [Sl 138.8]. E

    o mesmo Jesus Cristo, quando ora pelos eleitos, não há dúvida de que em sua oração pede o mesmo que pediu por Pedro; a saber, que sua fé não desfaleça [Lc 22.32]. Deste fato concluímos que estão fora do perigo de irremediável apostasia, posto que ao Filho de Deus não lhe foi negada sua petição para que os fiéis perseverassem constantemente. O que Cristo quis que daqui aprendêssemos, senão que confiemos de que fomos salvos para sempre, porque fomos feitos seus de uma vez por todas?


7. O VERDADEIRO ELEITO, CUJA COMUNHÃO COM CRISTO NÃO É MERA APARÊNCIA, JAMAIS DECAIRÁ DE SUA ELEIÇÃO, PERSEVERANDO, COM REAL HUMILDADE E PIEDOSO TEMOR, ATÉ O FIM


Mas, acontece diariamente que aqueles que pareciam ser de Cristo, de novo dele decaiam e se arrojem à perdição. Com efeito, nessa mesma passagem onde afirma que ninguém pereceu dentre aqueles que lhe foram dados pelo Pai, contudo, excetua o filho da perdição [Jo 17.12]. Certamente que isto é verdadeiro, mas igualmente verdadeiro é também que os tais nunca foram unidos a Cristo com aquela confiança de coração mercê da qual afirmo que a certeza da eleição se nos faz firme. “Saíram de nós”, diz João, “mas não eram de nós, pois se fossem de nós, ficariam conosco” [1Jo 2.19]. Tampouco nego que tenham com os eleitos sinais afins de vocação, mas de modo algum lhes concedo que tenham esse arrimo infalível da eleição o qual prescrevo que os fiéis busquem na palavra do evangelho. Portanto, que semelhantes exemplos não nos alterem nem nos impeçam de descansar confia-dos na promessa do Senhor, quando diz que o Pai lhe deu a todos aqueles que com verdadeira fé o recebem, dos quais nem um sequer perecerá por ser ele seu guardião e pastor [Jo 3.16; 6.39]. Quanto a Judas, dele falaremos logo em seguida.


Paulo não dissuade aos cristãos da mera segurança, mas da supina e desmedida segurança da carne, a qual arrasta consigo a altivez, a arrogância, o desprezo dos outros, sufoca a humildade e reverência de Deus e induz o esquecimento da graça recebida. Ora, Paulo está se dirigindo aos gentios, a quem ensina que por isso não há que aviltar, orgulhosa e desumanamente, os judeus, os quais, deserdados, aqueles assumiram seu lugar. Também requer temor, não aquele mercê do qual vacilem consternados, mas aquele que, induzindo-nos a contemplar humildemente a graça de Deus, nada diminua de sua confiança, como foi dito em outro lugar. Aduz que não está falando a indivíduos, um a um, mas, em termos gerais, às próprias facções. Pois, como a Igreja estivesse dividida em duas partes e a emulação gerasse a discórdia, Paulo adverte aos gentios de que, uma vez que foram postos no lugar do povo especial e santo, isso lhes deveria ser causa de temor e modéstia. Com efeito, entre esses, muitos eram presumidos, cuja vã jactância foi útil reprimir. Vimos também em outro lugar que nossa esperança se estende para o tempo vindouro, até mesmo para além da morte, e que não há nada mais contrário à sua natureza e condição do que estar inquietos e apreensivos sem saber o que doravante será de nós.375


8. HÁ DUAS ESPÉCIES DISTINTAS DE VOCAÇÃO: GERAL OU PARTICULAR OU ESPECIAL


Aquela afirmação de Cristo quanto a que muitos são chamados, porém poucos escolhidos [Mt 22.14], é deste modo muito mal entendida. Nada será ambíguo, se sustentarmos o que deve ser claro à luz das considerações supra, de haver dupla espécie de vocação. Ora, há a vocação universal, pela qual, mediante a pregação externa da Palavra, Deus convida a si a todos igualmente, ainda aqueles aos quais a propõe como aroma de morte [2Co 2.16] e matéria da mais grave condenação. A outra é a vocação especial, da qual digna ordinária e somente aos fiéis, enquanto pela iluminação interior de seu Espírito faz com que a Palavra pregada se lhes as-sente no coração. Contudo, às vezes também faz participantes dela aqueles a quem ilumina apenas por um tempo; depois os abandona ao mérito de sua ingratidão e os fere de cegueira mais profunda.


Vendo, pois, o Senhor que seu evangelho havia de ser anunciado ampla e extensivamente, e que era tido em desprezo por muitos, e poucos não o teriam na estima que ele merece, nos descreve a Deus sob a pessoa de um rei que, provendo um banquete solene, envia seus mensageiros por toda a redondeza a fim de convidar grande multidão, contudo obtendo a aceitação de pouquíssimos, porquanto cada um, de sua parte, alega impedimentos, de sorte que, finalmente, recusando esses, seja obrigado a buscar nas encruzilhadas qualquer um que encontre [Mt 22.2-9]. Ninguém deixa de ver até aqui que se deve entender a parábola à luz da vocação externa. Em seguida acrescenta que Deus age à semelhança do bom anfitrião que circula em torno das mesas para receber afavelmente a seus convidados. Aquele, no entanto, a quem porventura ache não ataviado de veste nupcial, de modo nenhum haverá de tolerar que com sua aparência esquálidaavilte a alegria festiva do banque-te [Mt 22.11-13]. Confesso que se deve entender esta referência daqueles que en-tram para a Igreja pela profissão de fé, mas de maneira alguma se revestem da santificação de Cristo. Tais aviltamentos, e dir-se-iam karkinw,mata/ [karkin)mat* – carcinomas], de sua Igreja, Deus não susterá perpetuamente, mas, segundo merece sua torpeza, os lançará fora.


Portanto, poucos foram eleitos dentre o grande número dos chamados, contudo não chamados com esta vocação da qual dizemos que os fiéis devem estimar a eleição. Pois aquela é comum também aos ímpios; esta traz consigo o Espírito de regeneração [Tt 3.5], que é o penhor e selo da herança futura [Ef 1.13, 14], pelo qual nossos corações são selados para o dia do Senhor[2Co 1.22]. Em suma, quando os hipócritas, não diferentemente dos verdadeiras adoradores de Deus, se vangloriem da piedade, Cristo sentencia que serão, finalmente, lançados fora do lugar que indevidamente ora ocupam [Mt 22.13], como se diz no Salmo: “Senhor, quem habitará em teu tabernáculo? – O inocente de mãos e de coração puro” [Sl 15.1,2; 24.4]. Igualmente, em outro lugar: “Esta é a geração dos que buscam a Deus, dos que buscam a face do Deus de Jacó” [Sl 24.6]. E por isso, o Espírito exorta os fiéis à tolerância, de sorte que não suportem com má vontade que os ismaelitas se misturem com eles na Igreja, porquanto, tirada a máscara, afinal serão lançados fora com ignomínia.


9. TAMPOUCO O CASO DE JUDAS MILITA CONTRA A CERTEZA DA ELEIÇÃO, O QUAL FOI ELEITO PARA O APOSTOLADO, PORÉM NÃO PARA A SALVAÇÃO


Esta é a mesma causa de que Cristo faz a exceção há pouco referida, onde diz que “ninguém pereceu, exceto o filho da perdição” [Jo 17.12]. E de fato é uma expressão imprópria, todavia, muito longe de obscura, pois ele não era contado entre as ovelhas de Cristo porque o era realmente, mas porque ocupava seu lugar. Que de fato o Senhor declara em outro lugar que ele foi escolhido para si, com os apóstolos, isto se refere somente ao ministério. “Não vos escolhi”, diz ele, “em número de doze? Contudo, um dentre vós é um diabo” [Jo 6.70]. Isto é, o havia escolhido para o cargo de Apóstolo. Quando, porém, fala da eleição para a salvação, o mantém longe do número dos eleitos: “Não falo a respeito de todos; eu sei a quem escolhi” [Jo 13.18]. Se alguém confunde o termo eleição em ambas essas modalidades de passagens, se enleará miseravelmente; se as distingue, nada é mais livre de embaraço.


Por isso, Gregório se expressa péssima e perniciosamente, quando ensina que temos consciência apenas de nossa vocação, mas que somos incertos de nossa eleição, donde a todos exorta ao temor e tremor, usando ainda deste argumento porque, ainda que saibamos o que somos hoje, entretanto, o que haveremos de ser, nos é desconhecido.376 Mas com sua maneira de proceder dá a entender bem claramente quanto se enganou nesta matéria. Porque fazia a eleição depender dos méritos das obras, tinha motivo mais que suficiente para abater os ânimos; firmá-los não podia, porque não os transferia de si próprio para a confiança da bondade divina. Daqui os fiéis podem ter algum sabor daquilo que já discutimos no início: a predestinação, se for entendida corretamente, não produz a convulsão da fé, mas, antes, sua melhor confirmação. Entretanto, tampouco nego que às vezes o Espírito acomoda a linguagem à medida de nosso senso, como quando diz: “No conselho secreto de meu povo não estarão e na lista de meus servos não serão escritos” [Ez 13.9]. Como se Deus começasse a inscrever no livro da vida aqueles a quem conta no número dos seus, quando, no entanto, sabemos que o próprio Cristo o atesta [Lc 10.20], dizendo que os nomes dos filhos de Deus foram escritos no livro da vida desde o início [Fp 4.3]. Com estas palavras, porém, simplesmente se assinala a exclusão daqueles que pareceram principais entre os eleitos, como lemos no Salmo: “Sejam apagados do livro da vida e com os justos não sejam inscritos” [Sl 69.28].


10. OS ELEITOS, ANTES DE SUA VOCAÇÃO, VIVEM COMO OS NÃO-ELEITOS, CONTUDO, SÃO POR DEUS GUARDADOS DA PERDIÇÃO TOTAL, VISTO QUE NELES NÃO SUBSISTE UMA COMO QUE SEMENTE DA ELEIÇÃO


De fato, os eleitos não são agregados ao redil de Cristo mediante a vocação, nem imediatamente desde a madre, nem todos ao mesmo tempo, mas como pareceu bem a Deus administrar-lhes sua graça. Antes, porém, que sejam congregados àquele Sumo Pastor, vagueiam dispersos no deserto comum a todos, não diferindo deles em nada, senão que são pela singular misericórdia de Deus protegidos para que não se lancem ao precipício último da morte. Portanto, se volveres para eles o olhar, verás a progênie de Adão, que exala a corrupção comum da massa. O fato de às vezes serem levados a extrema e desesperada impiedade, isto não ocorre mercê de alguma bondade neles ingênita, mas porque os olhos de Deus vela pela salvação deles e sua mão lhes foi estendida.


Ora, aqueles que sonham que desde o próprio nascimento lhes foi inserida no coração não sei que semente da eleição, em virtude da qual são sempre inclinados à piedade e ao temor de Deus, não contam com o apoio da autoridade da Escritura e a própria experiência os convence disso. De fato, trazem à baila uns poucos exemplos, dos quais tentam comprovar que os eleitos, também antes de sua iluminação, não foram estranhos à religião: Paulo, em seu farisaísmo, viveu de forma irrepreensível [Fp 3.5, 6]; Cornélio foi aceito por Deus, mercê de suas esmolas e orações [At 10.2]; e assim por diante.


Quanto a Paulo, admitimos a alegação; em Cornélio dizemos que estão enganados, pois é evidente que já então ele fora iluminado e regenerado, de sorte que nada lhe faltasse, exceto a clara revelação do evangelho. Mas, de fato, o que, afinal, esperam granjear com estes bem raros exemplos? Que porventura todos os eleitos sempre foram dotados do espírito de piedade? Não mais do que se alguém, uma vez demonstrada a integridade de Aristides, de Sócrates, de Xenócrates, de Cipião, de Cúrio, de Camilo, dentre outros, daí conclua que todos os que são deixados na cegueira da idolatria têm sido zelosos de santidade e de probidade. Mas, além do fato de que seu argumento nada valha, a Escritura os contradiz abertamente em muitas passagens. Porque o estado e condição em que os efésios, segundo Paulo, viveram antes de ser regenerados, não mostra um só grão desta semente: “E vos vivificou”, diz ele, “estando vós mortos em delitos e pecados, nos quais andastes, conforme os costumes deste mundo, segundo o príncipe do ar, que agora opera nos filhos contumazes, entre os quais também nós todos vivíamos outrora nas concupiscências de nossa carne, fazendo o que era agradável à carne e à mente. E éramos por natureza filhos da ira, assim como também os demais” [Ef 2.1-3]. Igualmente: “Lembrai-vos de que outrora vivíeis sem esperança e estáveis sem Deus no mundo”[Ef 2.12]. Ainda: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” [Ef 5.8].


Mas é possível que alguém diga que essas coisas têm a ver com a ignorância do Deus verdadeiro, quando não negam que os eleitos foram serem retidos, antes de serem chamados, ainda que isto seria impudente cavilação, quando Paulo conclui dessa passagem que já não mais se haja ou de mentir [Ef 4.25] ou de furtar [Ef 4.28].


No entanto, o que responderão às outras passagens, como aquela na Epístola aos Coríntios, onde, depois de declarar que “nem fornicários, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, serão herdeiros do reino de Deus” [1Co 6.9, 10], acrescenta imediatamente que nas mesmas abominações viveram enredados antes de conhecerem a Cristo; mas que agora, estão não só lavados por seu sangue, mas também liberados pelo Espírito [1Co 6.11]. Igualmente aquela na Epístola aos Romanos: “Da mesma forma que oferecestes vossos membros como servos da imundície e da iniqüidade para a iniqüidade, dedicai-os agora ao serviço da justiça. Pois que fruto tivestes dessas coisas das quais agora, com razão, vos envergonhais?” [Rm 6.19-21] etc.


11. EVIDÊNCIAS DA ESCRITURA QUE NEGAM O PRESSUPOSTO DE UMA SEMENTE DA ELEIÇÃO


Semente de eleição de que natureza, pergunto eu, então medrava naqueles que, ao longo de toda sua vida, contaminados de variadas maneiras, como se em desesperada impiedade, chafurdando-se em dissolução de todas a mais nefanda o execrável? Se Paulo quisesse falar conforme esses tais, deveria mostrar-lhes quanto deviam à benevolênciade Deus, mercê da qual foram preservados para que não caíssem em tão grandes torpezas. Assim, também Pedro deveria ter exortado os seus à gratidão por causa da perpétua semente da eleição. Ao contrário, ele adverte que fora suficiente o tempo passado para consumar as concupiscências dos gentios[1Pe 4.3].


O que dizer se passarmos aos exemplos? Gérmen de justiça de que natureza havia em Raabe, a meretriz [Js 2.1], antes que viesse à fé? Que semente em Manassés, quando embebeu Jerusalém imergindo-a, por assim dizer, no sangue dos Profetas? [2Rs 21.16]. E no ladrão, o qual, finalmente, se moveu ao arrependimento, por entre os últimos alentos? [Lc 23.42]. Portanto, longe de nós esses argumentos que, à parte da Escritura, para si próprios temerariamente cogitam homens demasiadamente curiosos! Permaneça, porém, para nós o que tem a Escritura: “Todos igualmente se extraviaram, à semelhança de ovelhas perdidas; cada um se desgarrava para seu caminho” [Is 53.6], isto é, para a perdição. Aqueles a quem o Senhor outrora determinou tirar deste sorvedouro de perdição, os guarda para sua ocasião; os preserva somente para que não se precipitem em imperdoável blasfêmia.


12. DEUS PRIVA DA GRAÇA SALVÍFICA OS RÉPROBOS E OS DEIXA ENTREGUES À CEGUEIRA MORAL E ESPIRITUAL


Da mesma forma que o Senhor, com a virtude e eficiência de sua vocação, guia os eleitos à salvação, à qual os destinara por seu eterno conselho, assim tambem ele tem seus juízos contra os réprobos, com os quais executa seu desígnio em relação a eles. Portanto, aqueles a quem criou para vileza de vida e ruína de morte, a fim de que venham a ser instrumentos de sua ira e exemplos de sua severidade, para que atinjam a seu fim, ora os priva da faculdade de ouvir sua palavra, ora mais os cega e os endurece por meio de sua pregação.


Ainda que sejam inumeráveis os exemplos do primeiro membro dessa díade, no entanto, escolhamos um só, o qual é mais evidente e notável que os demais. Aproximadamente quatro mil anos passaram antes da vinda de Cristo, durante os quais Deus ocultou aos povos toda a luz da doutrina salvífica. Se alguém responde que Deus não os fez possuidores de tão grande benefício, porque os julgou indignos, em nada mais dignos serão seus antecessores. Desta matéria, rica testemunha, e além da experiência, é Malaquias que, condenando-lhes a encredulidade misturada a crassas blasfêmias, no entanto anuncia que o Redentor haverá de vir [Ml 4.1, 2]. Portanto, por que ele é dado antes a estes que àqueles? Em vão se atormenta aquele que aqui procure causa mais alta que o conselho secreto e inescrutável de Deus. Nem é de temer-se que algum discípulo de Porfírio corroa impunemente a justiça de Deus, nada lhe redargüindo nós em favor. Quando, pois, asseveramos que ninguém perece sem que o mereça, e que é graciosa benevolência de Deus que alguns se livrem da condenação e se salvem, isto é suficiente para manter a glória de Deus, e não é mister, segundo se diz, tergiversar-se para defendê-la das calúnias dos ímpios. Portanto, o soberano Juiz dispõe sua predestinação quando, privando da comunicação de sua luz a quem reprovou, os deixa em trevas.


Do outro membro, a experiência comum de cada dia e numerosos exemplos da Escritura nos demonstram que é verdade.377 Perante cem pessoas praticamente se prega o mesmo sermão: vinte o recebem com a pronta obediência da fé; os outros, ou o consideram de nenhuma importância, ou o escarnecem, ou apupam, ou abominam. Se alguém replica que esta diversidade procede da malícia e perversidade dos homens, isso não será suficiente; porque a mesma malícia imperaria também no coração dos demais, se o Senhor por sua graça e bondade não os corrigisse. Portanto, estaremos sempre enlaçados, a menos que nos socorra essa indagação de Paulo: “Quem te diferencia?” [1Co 4.7] – querendo dizer que, se um excede ao outro, não se deve à sua virtude e poder, mas tão-somente à graça de Deus.


13. INSTRUMENTOS DA IRA JUSTA DE DEUS, OS RÉPROBOS SE FAZEM AINDA MAIS ENDURECIDOS COM A PREGAÇÃO DA PALAVRA


Portanto, por que Deus outorga a uns a misericórdia, enquanto deseja preterir a outros? Quanto àqueles, Lucas fornece a razão: “Porque foram ordenados para a vida” [At 13.48]. Quanto a estes, portanto, o que haveremos de sentir, senão porque “são vasos de ira para desonra?” [Rm 9.21, 22]. Por isso, não nos acanhamos falar com Agostinho: “Deus poderia”, diz ele, “converter para o bem a vontade dos maus, porque ele é onipotente. Obviamente que poderia. Então, por que não o faz? Porque não quis. Porque não quis, está nele.”378 Ora, não devemos saber mais do que convém, e isto é muito mais satisfatório que tergiversar com Crisóstomo, que Deus atrai a si “aquele que quer e estende a mão”,379 de sorte que a distinção não pareça situada no juízo de Deus, mas tão-só no arbítrio dos homens.


De fato, tão longe está de ser posto na mera vontade do homem, que podemos acrescentar que mesmo os piedosos, e os que temem a Deus, necessitam desta inspiração especial do Espírito.380 Lídia, a vendedora de púrpura, temia a Deus, e no entanto se fez necessário que seu coração fosse aberto para que desse atenção ao ensino de Paulo e nele colhesse proveito [At 16.14]. Isto não foi dito em referência a uma só mulher, mas para que saibamos que o avanço de cada um, na piedade, é a obra secreta do Espírito.


Certamente não se pode pôr em dúvida que o Senhor envia sua Palavra a muitos cuja cegueira quer que aumente. Pois, a que propósito envia tantas ordens a Faraó? Porventura porque esperava que ele se abrandasse com embaixadas mais freqüentemente repetidas? Muito pelo contrário, antes que começasse, não apenas sabia, mas até predissera o resultado. “Vai”, dizia ele a Moisés, “e declara-lhes minha vontade; eu, porém, lhe endurecerei o coração para que não obedeça” [Ex 4.19, 21]. Assim, quando suscita a Ezequiel, o avisa de antemão que o está enviando a um povo rebelde e contumaz [Ez 2.3], para que não se sinta perplexo caso descubra que está cantando a surdos [Ez 12.2]. Assim, prediz a Jeremias que seu ensino haveria de ser como fogo, para que ao povo destrua e dissipe à semelhança da palha [Jr 1.10; 5.14]. Mas, impressiona ainda mais a profecia de Isaías, pois ele é assim enviado pelo Senhor: “Vai e diz aos filhos de Israel: Ouvi, com efeito, e não entendais; vede, de fato, e não saibais. Obstina o coração deste povo, e faz-lhe pesados os ouvidos, e embaça-lhe os olhos, para que, por acaso, não veja com seus olhos, e entenda com o coração, de sorte que, convertido, seja sarado” [Is 6.9.10]. Eis que lhes dirige a voz, mas para que se façam mais surdos; uma luz lhes acende, mas para que se tornem mais cegos; ministra-lhes ensino, mas para que por ele se façam ainda mais estultos; aplica remédio, todavia, para que não sejam curados. E, acrescentando esta profecia, João sentencia que os judeus não puderam crer no ensino de Cristo porque esta maldição divina os impediria [Jo 12.39, 40]. Tampouco se pode pôr em dúvida que a quem Deus não quer iluminar, lhes propõe sua doutrina cheia de enigmas, a fim de que não lhes aproveite, e caiam em maior embotamento e extravio. Pois Cristo dá testemunho de que por isso só aos Apóstolos explicava as parábolas nas quais havia falado diante da multidão: porque “a estes fora dado conhecer os mistérios do reino de Deus, mas não igualmente à plebe” [Mt 13.11]. O que o Senhor pretende, dirás, ensinando aqueles de quem cuida não seja entendido? Considera donde provém a falha e deixarás de indagar. Ora, qualquer que seja a obscuridade que haja na Palavra, no entanto sempre há bastante de luz para convencer a consciência dos ímpios.


14. A CONDENAÇÃO DOS ÍMPIOS, QUE PROMOVE A GLÓRIA DE DEUS, RESULTA NÃO MENOS DA DUREZA DE CORAÇÃO E DA IMPIEDADE DOS RÉPROBOS QUE DA DIVINA DETERMINAÇÃO


Resta agora vermos por que o Senhor faz isto, uma vez provado que ele o faz. Se a resposta for que assim acontece porque os homens, por sua impiedade, iniqüidade e ingratidão, o mereçam, de fato isso é realmente assim; mas visto que a razão dessa diversidade ainda não se faz patente, pela qual o Senhor inclina a uns a que lhe obedeçam e faz que os demais persistam em sua obstinação e dureza, para solucionar devidamente esta questão devemos recorrer àquilo que Paulo assinalou de Moisés [Ex 9.16], isto é, que “desde início o Senhor os suscitou para que desse a conhecer seu nome em toda a terra” [Rm 9.17]. Portanto, o fato de que os réprobos não obedecem à Palavra de Deus a si revelada, há que imputar-se com toda razão à malícia e perversidade que reina em seu coração; desde que, ao mesmo tempo, se acrescente por que foram entregues a esta depravação, ou, seja, que pelo justo, porém inescrutável, juízo de Deus, foram suscitados para ilustrar sua glória através de sua própria condenação.


De maneira semelhante, quando se narra sobre os filhos de Eli, que não deram ouvidos às salutares advertências que seu pai lhes ministrava, porque “o Senhor os queria matar” [1Sm 2.25], não se nega que a obstinação provinha da própria iniqüidade deles; entretanto, ao mesmo tempo se nota por que foram abandonados à obstinação, quando o Senhor podia abrandar-lhes o coração: porque de fato seu decreto imutável os havia destinado, uma vez por todas, à ruína. Ao mesmo visaessa nota de João: “E ainda que fizera tantos sinais diante deles, não criam nele; para que se cumprisse a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu em nossa pregação?” [Is 53.1; Jo 12.37, 38]. Ora, inda que não escuse a culpa dos contumazes, contudo, se contenta com esta razão: que a graça de Deus é insípida aos homens até que o Espírito Santo lhe confira sabor. E Cristo, citando o vaticínio de Isaías, “Serão todos ensinados por Deus” [Is 54.13; Jo6.45], não tenciona dar outro sentido, senão que os judeus eram réprobos e alienados da Igreja porque são indóceis; nem oferece outra causa, senão que a promessa de Deus não lhes pertença, o que confirma essa afirmação de Paulo: “Cristo é escândalo para os judeus e loucura para os gentios, mas para os chamados é o poder e a sabedoria de Deus” [1Co 1.23, 24]. Ora, pois, quando disse o que acontece ordinariamente sempre que o evangelho é pregado, isto é, que a uns exaspera, por outros é desdenhado, diz que somente entre os chamados ele é tido em apreço. Aliás, pouco antes [1Co 1.21] os havia denominado de crentes, mas, à graça de Deus, que precede à fé, não quis negar seu devido lugar; senão que, antes, adicionou, à guisa de correção, este segundo ponto, para que à vocação de Deus rendessem o louvor de sua fé os que haviam abraçado o evangelho, assim como também ensina pouco depois [1Co 1.24] que eles foram eleitos por Deus.


Quando os ímpios ouvem essas coisas, bradam por socorro, visto que, com poder despótico, Deus abusa de suas míseras criaturas, para a recreação de sua crueldade. Nós, porém, que sabemos que todos os homens estão, por tantos motivos, de tal modo sujeitos ao tribunal de Deus, que, interrogados por mil perguntas, na verdade nem sequer em uma podem satisfazer, confessemos que os réprobos nada sofrem que não esteja em harmonia com o mui justo juízo de Deus. E não temos que nos envergonhar de confessar nossa ignorância, quando a sabedoria de Deus se eleva de forma mui sublime.381


15. A DOUTRINA DA REPROVAÇÃO NÃO CONTRADIZ, COMO ALEGAM OS OPOSITORES, A EZEQUIEL 33.11


Mas, visto ser costumeiro fazer objeções a umas poucas passagens da Escritura, nas quais Deus parece negar que, por sua ordenação, aconteça que os iníquos pereçam, a não ser até onde, contra seu querer, eles pessoalmente engendram deliberadamente para si a morte, explicando-as sumariamente, demonstraremos que em nada contradizem a tese supra. A passagem de Ezequiel é trazida a lume, a qual reza que “Deus não quer a morte do pecador, mas, antes, que se converta e viva” [Ez 33.11]. Se agrada a Deus estender isto a todo o gênero humano, por que não induz ao arrependimento os muitos cujo espírito é mais flexivelà obediência que o espírito daqueles que, ante seus convites diários, mais e mais se endurecem? Junto aos habitantes de Nínive e de Sodoma, segundo o testemunho de Cristo, a pregação do evangelho e os milagres teriam produzido mais fruto que na Judéia. Se Deus quer que todos venham a ser salvos, como acontece, pois, que aos míseros, que mais preparados estariam para receber a graça, ele não abra a porta do arrependimento? Vejamos daqui quão violentamente é torcida esta passagem, a saber, se a vontade de Deus, que o Profeta lembra, é confrontada com seu eterno conselho, pelo qual distinguiu dos réprobos os eleitos.


Ora, se alguém indaga qual é a intenção genuína do Profeta, diremos que ele quer propiciar a esperança de perdão somente aos que se arrependem. E esta é a síntese: não há que duvidar-se de que Deus esteja pronto a perdoar tão logo o pecador seja convertido. De fato ele não quer sua morte, enquanto quer seu arrependimento. A experiência, porém, assim ensina que Deus quer que aqueles que a si convida se arrependam, mas que não toca o coração de todos. Entretanto, não se deve dizer que por isso ele age enganosamente, porquanto, visto que só pela voz externa torna inescusáveis os que a ouvem, contudo, não obedecem, é verdadeiramente considerada testemunho da graça de Deus, mediante o qual ele reconcilia os homens consigo. Tenhamos, pois, em consideração a injunção do Profeta de que a morte do pecador não agrada a Deus, para que os piedosos confiem que, tão logo sejam tocados de arrependimento, seu perdão está imediatamente junto a Deus; os ímpios, porém, se deixam dobrar pelo crime, porque não respondem à tão grande clemência e benignidade de Deus. Logo, a misericórdia de Deus vai sempre junto com o arrependimento, mas a quem é dado o arrependimento, claramente ensinam tanto todos os profetas, quanto os apóstolos, e o próprio Ezequiel.


16. TAMPOUCO É PROCEDENTE QUE 1 TIMÓTEO 2.4, 2 PEDRO 3.9 E OUTRAS PASSAGENS CONTRADIZEM A DOUTRINA DA REPROVAÇÃO


Acrescenta-se, em segundo lugar, a passagemde Paulo, onde o Apóstolo ensina que Deus quer que todos se salvem [1Tm 2.4], da qual, visto que a razão da passagem supracitada é diferente, no entanto, algo é comum. Respondo, em primeiro lugar, que à luz do contexto se faz evidente como ele o quer, pois Paulo acopla estes dois pontos: que Deus quer que sejam salvos, e que cheguem ao conhecimento da verdade. Se, como dizem, foi determinado pelo eterno conselho de Deus que todos sejam feitos participantes da doutrina da vida, o que significam as palavras de Moisés: “que naçãohá tão grande, que tenha deuses tão chegados, como o Senhor nosso Deus, todas as vezes que o invocamos?” [Dt 4.7]. Qual é a causa de Deus privar a muitos povos da luz do evangelho da qual outros usufruíam? Qual é a causa de o puro conhecimento da doutrina da piedade nunca haver chegado a alguns, quando outros mal tenham degustado certos rudimentos obscuros?


Daqui se pode concluir claramente qual é a intenção de Paulo. Ele havia preceituado a Timóteo que se formulassem na Igreja orações solenes em favor dos reis e príncipes [1Tm 2.1, 2]. Como, porém, parece algo absurdo que orações sejam derramadas a Deus em favor de um gênero de homens quase irremediavelmente perdidos (porquanto não só eram todos estranhos ao corpo de Cristo, mas até porfiavam, com todas suas forças, por esmagar-lhe o reino), acrescenta que isso é “aceitável a Deus, o qual quer que todos os homens sejam salvos” [1Tm 2.3, 4]. Com isso, realmente outra não é sua intenção, senão dizer que Deus não fechou o caminho da salvação a nenhuma ordem de homens, senão que, antes, de tal modo derramou sua misericórdia, que não quer que algum dentre eles seja dela carente.


Outras passagens não declaram o que o Senhor, em seu juízo secreto, determinou acerca de todos, mas proclamam que o perdão está à disposição de todos os pecadores que, simplesmente, se volvam a buscá-lo. Ora, se insistem com mais tenacidade, dizendo que Deus quer ter misericórdia de todos [Rm 11.32], eu argumentarei em contrário, com base no que está escrito em outro lugar: “Nosso Deus está no céu, onde faz tudo quanto queira” [Sl 115.3]. Assim, pois, se haverá de interpretar esta palavra, com a qual esta outra concorda: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu quiser ter compaixão” [Ex 33.19]. Quem decide de quem deva ter misericórdia, não a comunica a todos. Mas, uma vez que se evidencia claramente que aí não se trata de indivíduos, um a um, mas de classes de homens, então a discussão não deve alongar-se mais. Todavia, é preciso notar, ao mesmo tempo, que Paulo não está expondo o que Deus sempre faz, por toda parte e em todos, mas que o deixemos livre para, por fim, fazer participantes da doutrina celestial aos reis e magistrados, ainda que, em razão de sua cegueira, se insurjam furiosos contra ela.


Parecem insistir ainda mais fortemente com a passagem de Pedro: “Deus não quer que alguém se perca, senão que todos venham ao arrependimento” [2Pe 3.9]. Com efeito, a solução da dificuldadeocorre já na segunda palavra, porque a vontade de que venham ao arrependimento não se pode entender ser outra senão aquela que a cada passo se ensina na Escritura. Não há dúvida de que a conversão está na mão de Deus: uma vez que a uns poucos promete que lhes dará um coração de carne, a outros deixando-lhes o coração de pedra [Ez 36.26], então que seja ele interrogado se porventura queira converter a todos. Aliás, é verdade que, a não ser que Deus esteja pronto a receber os que lhe imploram a misericórdia, ao mesmo tempo cairia por terra esta declaração: “Tornai-vos para mim, diz o Senhor dos Exércitos, e eu me tornarei para vós” [Zc 1.3], mas reitero que nenhum dos mortais recorre a Deus, senão aquele que é divinamente antecipado. E se o arrependimento estivesse no arbítrio do homem, Paulo não diria: “se porventura Deus lhes dará o arrependimento para conhecerem a verdade” [2Tm 2.25]. De fato, a não ser que o mesmo Deus, que com sua voz a todos exorta ao arrependimento, a si conduzisse os eleitos, Jeremias não diria: “Converte-me, e me converterei ... Na verdade, depois que me converti, tive arrependimento” [Jr 31.18, 19].

17. CONSIDERAÇÕES EM REFUTAÇÃO DE OUTRAS OBJEÇÕES SUSCITADAS CONTRA A DOUTRINA DA REPROVAÇÃO E CONCLUSÃO FINAL DA MATÉRIA


Ora, pois, dirás, se é assim, mui pouca certeza oferecem as promessas do evangelho, as quais, em testificando da vontade de Deus, asseveram que ele quer aquilo que contrapõe a seu inviolável decreto. De modo algum, respondo, porque, por mais que as promessas de salvação sejam universais, entretanto, em nada discrepam da predestinação dos réprobos, desde que dirijamos a mente para sua eficácia. Sabemos que, afinal, as promessas nos são eficazes quando as recebemos em fé; quando, ao contrário, a fé é aniquilada, a promessa foi, ao mesmo tempo, abolida. Se essa é sua natureza, então vejamos se porventura estas duas teses discrepam entre si: dizse que Deus ordenou desde a eternidade a quem quer abraçar em amor, exerce sua ira contra quem quer, e que proclama a salvação a todos indiscriminadamente. Deveras digo que elas se harmonizam perfeitamente, pois, assim prometendo, outra coisa não pretendesenão que sua misericórdia seja oferecida somente a todos os que a buscam e imploram, o que outros não fazem, a não ser aqueles a quem ilumina. Entretanto, Deus ilumina aqueles a quem predestinou para a salvação. A estes, afirmo, patenteia-se a veracidade certa e inconcussa das promessas, de modo que não se pode dizer que houve alguma discrepância entre a eterna eleição de Deus e o testemunho que oferece aos fiéis de sua graça.


Mas, por que menciona todos? Na verdade, para que mais seguramente aquiesçam as consciências dos pios, enquanto compreendem que não há nenhuma diferença dos pecadores, desde que a fé esteja presente; os ímpios, porém, para que não aleguem faltar-lhes um refúgio em que se abriguem da servidão do pecado, visto que, por sua ingratidão, rejeitam o asilo a si oferecido. Portanto, uma vez que a uns e outros desses dois grupos seja oferecida pelo evangelho a misericórdia de Deus, é a fé, isto é, a iluminação de Deus, que estabelece distinção entre os pios e ímpios, de sorte que aqueles sintam a eficácia do evangelho, porém estes não conseguem daí nenhum fruto. A própria iluminação também tem como elemento regulador a eterna eleição de Deus.


A lamentação de Cristo, que citam: “Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes quis eu ajuntar teus pintainhos, e não quiseste” [Mt 23.37], não lhes propicia nenhum abono. Declaro que Cristo está falando não apenas em relação a sua pessoa humana, mas ainda a censurá-los porque em todos os séculos repudiaram sua graça.


Mas, cabe-nos definir essa vontade de Deus da qual se trata aqui, pois não é obscuro quão zelosamente Deus envidou esforços para reter aquele povo e com quão grande obstinação, entregues a seus perversos desejos, desde os primeiros até os últimos, desdenharam esse congraçamento, mas daí não se segue que o conselho de Deus veio a ser anulado pela maldade dos homens. Objetam que nada é menos consentâneo à natureza de Deus do que nele haver uma dupla vontade, o que admito, desde que sejam intérpretes qualificados. Mas, por que não levam em conta as tantas passagens onde, revestindo-se de sentimentos humanos, Deus desce aquém de sua majestade? Diz ele que chamou um povo rebelde com braços estendidos [Is 65.2], que de manhã e de tarde tudo fez para conduzi-lo a si. Se porventura preferem aplicar a Deus todas estas coisas e não atentar para o teor figurativo da passagem, muitas contendas supérfluas emergirão, as quais podem ser solucionadas dizendo que a Deus, à guisa de semelhança, se atribui o que é próprio dos homens. Embora seja mais que suficiente a solução que adicionamos em outro lugar: embora, até onde vai nossa percepção, a vontade de Deus seja múltipla, contudo, em si ele não quer isto e aquilo; ao contrário, em razão de sua multiforme sabedoria, como Paulo a denomina [Ef 3.10], nossos sentidos se tornam atônitos, até que nos seja dado conhecer que ele, de uma forma admirável, quer o que agora parece ser contrário à sua vontade.


Lançam mão também de outras cavilações, a saber, como Deus é o Pai de todos, é injusto que deserde a alguém, a não ser aquele que, por sua própria culpa, tenha antes merecido esta pena, como se de fato a liberalidade de Deus não se manifeste até para com porcos e cães! Pois se nos limitamos ao gênero humano, então me respondam por que Deus se vinculou a um só povo, para que fosse seu Pai, e por que também colheu daí um número tão diminuto, como se fosse dele a flor? Mas, sua paixão por vilipêndio impede esses motejadoresde considerar que Deus de tal modo “faz vir seu sol sobre os bons e maus” [Mt 5.45], que a herança foi reservada aos poucos a quem, um dia, se haverá de dizer: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino” etc. [Mt 25.34].


Além disso, objetam que Deus não odeia absolutamente essas coisas que fez, o que, ainda que eu lhes conceda de bom grado, contudo, permanece o que estou ensinando: que os réprobos são abomináveis a Deus, e na verdade com mui boa razão, visto que, destituídos de seu Espírito, nada podem apresentar senão motivo de maldição. Acrescentam que não há distinção de judeu e gentio, e por isso a graça de Deus se propõe a todos indiscriminadamente, isto é, desde que admitam, como Paulo declara, que “Deus chama, segundo seu beneplácito, tanto entre os judeus, quanto entre os gentios” [Rm 9.24], de sorte que ele não é obrigado a ninguém. Deste modo também se dilui o que objetam de outra passagem: que “Deus encerrou tudo debaixo do pecado, para que tenha compaixão de todos” [Rm 11.32], isto é, porque quer que a salvação de todos os bem-aventurados seja atribuída à sua misericórdia, uma vez que este beneficio não é comum a todos.


Com efeito, quando se apresentam muitas considerações de uma e outra parte, esta é nossa conclusão: tremer com Paulo ante a incomensurável profundidade, mesmo que línguas petulantes vociferem, não nos envergonhando desta sua exclamação: “Mas, ó homem, quem és tu que replicas a Deus?” [Rm 9.20]. Pois de fato Agostinho afirma que agem perversamente aqueles que medem a justiça divina com a medida da justiça humana.382


  

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